Em novembro de 2016, a Relógio D’Água proporcionou-nos o refletir sobre o livro «O Círculo», de Dave Eggers.
Uma das figuras principais deste livro tenta livrar-se da todo-poderosa tecnologia digital, escondendo-se numa floresta, mas a tecnologia encontra-lhe facilmente o rasto; ele, então, atira-se do alto de uma escarpa, com a certeza de se suicidar.
O que será de nós se trabalharmos e interagirmos uns com os outros transformados numa outra forma e a vivermos em ambientes virtuais? A que estatuto ficaremos ligados, e qual a dimensão deste controlo e os seus efeitos nas democracias?
Seguramente, as candentes questões sobre o papel da memória, do passado e da privacidade são tolhidas neste processo que esmigalha o conhecimento.
Quando nos encontrarmos neurodigitalmente ligados uns aos outros e também a tudo o que existe através da chamada Internet das Coisas, acharemos, nesse momento, o tempo oportuno para nos questionarmos sobre os efeitos da digitalização nos nossos cérebros?
Apesar das vantagens da Internet das Coisas, ela apresenta desvantagens, tais como a exposição de dados, endereços e hábitos, que podem ser usados por hackers para os piores fins.
E o que sabemos nós, sobretudo os menos familiarizados, com estas tecnologias?
Será que já se pode perguntar a razão de o modelo de negócio do Silicon Valley assentar na privatização do que era espaço público e no investimento na criação de algo que nos leva pela trela?
Não será que o admirável mundo novo nos pode fazer instalar num processo de não-crianças e de não-adultos, que abdicam das responsabilidades, mas falam e continuam a agir e a esperar reações na instituição do desmantelamento do sentido?
Bernard Stiegler, pensador da tecnologia e do humano, também nos deixa a reflexão sobre o fenómeno da melancolia coletiva generalizada pela conexão constante, já que mais de metade da população está em rede, esvaziando conteúdos e funções, e as estruturas sociais — da instituição familiar à educação —simplesmente, são destruídas.
Podemos assentar que a inovação é necessária, mas, com a aceleração digital no descaminho, tornar-se-á demolidora por conduzir à liquidação do social, não fosse facilmente exequível o poder de submeter os indivíduos às médias de serem medíocres.
No procurar de um trajeto, se já não se sabe bem onde se está, como referia Blanchot, então o homem torna-se exilado e votado à confusão.
Teresa Bracinha Vieira