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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

Segundo centenário do nascimento de Camilo Castelo Branco

Teve lugar na semana que agora termina no Centro de Estudos Anterianos em Vila do Conde a sessão de encerramento das comemorações do segundo centenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. Publicamos hoje a intervenção de Guilherme d’Oliveira Martins.

Falar sobre Camilo Castelo Branco em Vila do Conde obriga-nos a lembrar o momento em que o romancista aqui esteve em 1870 e em que escreveu ao seu amigo António Feliciano de Castilho: “A minha saúde é péssima. Estou em Vila do Conde, ainda a fazer não sei o quê. Passo os dias na cama mastigar as batatas cozidas de Francisco Manuel do Nascimento, ajeitadas ao pudim das odes horacianas. Li há dias o ‘Camões’ pela quarta vez. Aquilo faz-me lembrar o bom ouro dos dobrões de D. João V”. Com o sólido conhecimento dos clássicos, Camilo referia-se a Filinto Elísio, o grande árcade, e a uma obra que o celebrizou. Foi então que Camilo soube da tragédia do seu amigo Vieira de Castro, num episódio tremendo, que o condenaria ao degredo.

Ao evocar Camilo na casa de Antero de Quental, homenageio, em primeiro lugar, um mestre da nossa cultura contemporânea que nos ensinou tudo sobre o génio de S. Miguel de Ceide. “Eis um homem que não precisa de apelido para ser identificado na vida e na literatura”. Falo de João Bigotte Chorão, que sentidamente homenageio. “Dizemos Camilo (continua o polígrafo) – e esse nome chega para designar um rosto e uma obra inconfundíveis. Camilo evoca ‘o romance do romancista’, tão dramático como o das suas personagens, e uma longa fila de livros que toda a gente conhece ao menos de título: Amor de Perdição, Novelas do Minho.. Camilo, que constitui todo um capítulo e fundamental da literatura portuguesa do século XIX e é tema de especialistas, foi sempre um autor popular: Lêem-no tanto letrados como homens da rua. É popular e ao mesmo tempo complexo, vasto e vário pelo número de títulos e a diversidade de géneros, como um continente ou uma floresta que nunca se conhece por mais que se explore. Há segredos, zonas recônditas, e talvez nunca se revelam – nem ao explorador mais curioso e mais audaz. Quem é Camilo?”. Falo do memorialista, ensaísta e crítico, licenciado em Direito por Coimbra, sem dúvida um dos melhores conhecedores de Camilo, possuindo uma notável visão de conjunto, porque estudou Garrett, Eça, Carlos Malheiro Dias, Tomaz de Figueiredo e João Araújo Correia. Estudioso de Vintilia Horia (1915-1992), “Um Camponês do Danúbio”, leitor insaciável, diarista e memorialista fecundo, pode dizer-se que João Bigotte Chorão teve um “constante empenho no conhecimento e na valorização da língua portuguesa”. Que melhor poderemos dizer, estudando o que magnificamente nos legou.

Mas aproximemo-nos de Camilo Castelo Branco,  que aqui nos traz. Camilo não foi um adversário das figuras da Geração de 1870, antes foi um atento leitor, ciente da importância da compreensão desses jovens, que representavam uma nova mentalidade. Ele era de outra geração e a sua demarcação tinha a ver com a crítica ao idealismo alemão e ao positivismo francês. Pela sua enorme cultura, Camilo era respeitado por esses jovens, mas estes não escondiam uma demarcação relativamente à atitude ao pensamento. Camilo foi amigo de Antero de Quental, apesar das primeiras críticas às “Odes Modernas”. Não esquecemos nem essas primeiras impressões, nem a sua consideração final de que representavam a “aurora da poesia moderna, que os imitadores não têm podido estraga-las”. É certo que na livraria de Antero não chegaram até nós obras de Camilo, mas há a sua assinatura, como erudito, na oferta da “Vida do Venerável Servo de Deus Bartolomeu de Quental”. Do mesmo modo, não há correspondência entre ambos, mas Antero convidou-o para a “Revista Ocidental”.

Analisando o relacionamento camiliano com outras personalidades de 1870, Oliveira Martins foi porventura quem revelou mais afinidades com Camilo, pelo diálogo intelectual e pela compreensão da dimensão multifacetada do romancista. Por outro lado, Guerra Junqueiro teve com Camilo uma relação de estima, a ponto de o poeta da “Velhice do Padre Eterno” ter admirado profundamente o romancista, propondo na sua morte homenagens nacionais e tendo um dos seus textos sido usado para prefaciar a publicação da “Velhice”. Já Ramalho Ortigão enalteceu o Porto romântico de Camilo, apesar de, segundo alguns ter feito uma leitura parcelar do romancista. O certo é que Camilo representa Portugal na sua complexidade. Veja-se a compreensão do país tradicional e do país moderno, evidenciando-se a costela patuleia do romancista, capaz de a um tempo entender José do Telhado, as tropas do General Póvoas ou a Constituição liberal e a atitude reformista da “janeirinha” e do Bispo de Viseu. Da vida aventurosa de Camilo à amizade com personalidades marcantes da vida constitucional, culminando com a atribuição final do título de Visconde, podemos dizer que Portugal na sua complexidade não pode ser compreendido sem a referência e a compreensão da importância de Camilo.

Lembre-se, a título de exemplo, a relação com Oliveira Martins, em especial no tocante à publicação da História de Portugal, da qual Camilo gostou, lendo-a atentamente. “A História do Senhor Oliveira Martins lê-se devagar, atentamente, porque a cada página se encontram induções, panoramas, lances de vista que obrigam a reflexão”. A pedido do autor, Camilo vai fazer sugestões de correções e aperfeiçoamentos. E aprecia: “É mister às vezes agrupar os personagens subentendidos nas ilações para que eles operem e afirmem os sucessos de que derivam as opiniões históricas do autor”. Entre os diversos capítulos da obra, Camilo saúda especialmente “A Viagem da Índia”, como “quadro perfeito tecido com muita habilidade”. O tema do papel dos jesuítas preocupa especialmente Camilo, Deles dirá que não tiveram a ver com a corrupção da Índia.  Acusam-na em termos desabridos para o reino. Mas a verdade é que quiseram introduzir o rito latino nas igrejas nestorianas e daqui a desvalorização das mercadorias, porque os cristãos siríacos malabares, com medo dos portugueses deixaram de descer até Cochim a negociar. Para Camilo, dever-se-iam louvar tais missionários, que não transigiram com o erro de conservar aberto o tráfico ou a rica veniaga da pimenta.

Apesar da resistência relativamente aos jesuítas, Camilo vem dizer que uma apreciação do Senhor O.M. salva-o de uma perspetiva obscurantista e ardilosa: “todos concordavam até no seio da Alemanha protestante que a mocidade aprendia mais e melhor com os jesuítas. As línguas antigas eram, na Renascença, o alicerce da educação clássica, e ninguém excedia no conhecimento delas os professores dos Colégios, que a Companhia espalhava por toda a parte; sempre que erigiam um templo, fundavam uma escola”.

Se é verdade que Camilo aponta as divergências e as convergências, o certo é que reconhece as diferenças de atitude: “neste ponto de divergência inconciliável, admiro a habilidade, mas não convenho na equidade da acusação. Todos temos os nossos panoramas históricos”. Em suma, Oliveira Martins agradece penhoradamente o empenho do romancista: “O Senhor Camilo Castelo Branco, aplaudindo o livro e concordando na maneira de apreciar e colocar os traços dispersos com que era necessário contruir os quadros e as figuras, não deixou de notar mais de um erro, mais de um lapso; e a pontualidade com que adotei as suas emendas é a melhor prova que eu posso dar do meu cordial agradecimento”. Estamos perante um exemplo digo de nota de cooperação intelectual e de reconhecimento da importância de uma partilha de conhecimentos e de estudo. E Camilo Castelo Branco é um exemplo de duas qualidades relevantes: a atenção ao conhecimento histórico e à sua evolução e o cuidado nas relação com os investigadores e os estudiosos.

(*) Deixo uma palavra de especial apreço e saudade para a memória do meu amigo José Viale Moutinho há pouco desaparecido, cujos ensinamentos estão muito presentes nesta evocação. As referências bibliográficas do presente texto encontram-se em “Oliveira Martins e os Críticos da História de Portugal”, Biblioteca Nacional, 1995. Aí encontramos com desenvolvimento o essencial da reação de Camilo Castelo Branco em relação à História de Portugal de Oliveira Martins.   

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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