Sendo uma enunciação ou formulação geradora de porquês geradores de outros porquês, a filosofia é o apogeu de um questionar constante e permanente da realidade.
Não sendo pensável pelo modelo de articulação problema-solução, nem pela experimentação e observação, mas sim pelo pensamento abstrato e reflexão crítica, não é uma ciência, nem é desejável que o seja.
Se é uma possibilidade em busca de descobrir a verdade sobre “nós próprios”, os “outros”, as “coisas”, o “mundo”, a “certeza”, a “incerteza”, a “dúvida”, o “finito”, o “infinito”, enfim, sobre o “tudo” e o “nada”, não é previsível que alguma vez venha a ser uma ciência.
Nesta perspetiva, a ciência é um modelo redutor e simplista para a filosofia, na medida em que a reduz à epistemologia, onde se continua a questionar os fundamentos da nossa “certeza” sobre o que “sabemos”.
Daí que, se falarmos de progresso como um processo regular, cumulativo e evolutivo, por certo que a filosofia não progride. É uma noção de progresso contaminada pela ciência. Mas se falarmos em progresso da razão, é um outro modo de se exprimir o progresso em filosofia, pretendendo-se dizer que nós, hoje, compreendemos mais coisas que os antigos, desde os gregos e romanos, passando pelos medievais, renascentistas, modernistas, positivistas, até aos nossos contemporâneos. Mas não há uma “medição” munida de critérios para avaliação desse progresso, como há na ciência. Esse sentido mínimo da noção de progresso (da razão) não é cientificamente quantificável, o que não exclui elaborar uma narrativa plausível do seu percurso.
Pode, assim, dizer-se que a filosofia não tem método, sendo um complexo retórico de impurezas e incertezas, em que várias dimensões coexistem e se afrontam via do contraditório, onde a dúvida é a força motriz que a impulsiona.
Ao não ter um método, tem um conjunto de procedimentos argumentativos, retóricos e técnicos que a problematizam e mantêm num contínuo questionamento da realidade, alheando-se do adormecimento e cultivando no seu seio uma atitude permanentemente crítica face ao mundo tal como ele é.
Desprezada e negativizada por uns (“a filosofia é para líricos e uma perda de tempo”), positivada e pessoalizada por alguns (“a minha filosofia”, “todos temos uma filosofia”), romantizada por outros (“a filosofia é a amizade ou a procura amiga pelo saber”), a filosofia é uma atividade que se preocupa com a descoberta da verdade sobre o ser, com o que o ser humano sente falta.
Não é uma derrota em si mesma, mas sim a antítese do entretenimento e da desmobilização, à revelia do pesadelo de uma ditadura tecnológica num mundo de indivíduos e cidadãos convertidos em autómatos, na medida em que pergunta e se interpela continuamente, num questionamento ininterrupto da realidade, não sujeito a obrigações ditatoriais ou totalitárias.
Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 261