Para podermos esperar uma vida mais justa e bela, temos de lutar contra o medo de que não haja futuro.
A ideia de que as chamas de uma IA nas mãos de quem a domina servem para perpetuar um poder é, em si, uma ideia de uma pavorosa realidade induzida pela política do medo.
O déjà vu a que muitos se referem, julgamos, é algo de outra ordem; algo que não envolvia esta economia de morte, também tecnologicamente genocida.
Estamos perante um mundo que desaba em crueldade algorítmica enquanto se tenta fazer alguma coisa, enquanto se pensa no que se poderia ter feito para que chegássemos a uma realidade diferente.
E o que mais se poderá fazer para agir com eficácia contra esta angústia e este medo que nos minam a qualidade de vida?
Diga-se que a baixa tolerância à incerteza desenvolve o medo do futuro e incapacita cenários ricos em esperança combativa.
As notícias, diga-se, alimentam e adubam os sentimentos coletivos de pessimismo, apreensão e paralisação.
A projeção no futuro de algo doloroso do passado faz sentir, tridimensionalmente, tudo o que de ruim pode acontecer e a incerteza obstrutiva constitui o desconhecido afogado em ansiedade.
Saberemos o que está a acontecer e o que não está a acontecer?
Saberemos o quanto o pavor tem força para encobrir e para revelar?
Se tudo parece difuso, então lutemos por ganhar clareza conceptual mesmo quando, à nossa volta, tudo nos parece incêndio.
Se o chão nos foge e a angústia se oferece como tapete e se o medo tem um objeto, é porque podemos identificar o seu perigo, então desbastemos o trauma que nos inculca a interrupção de uma existência condigna — tudo, afinal, o que nos perturba enquanto vivos e nos torna presos do nada.
Que não se permita que a nova fórmula do medo impeça a humanidade de se reconhecer como humana.
Que não se permita que a estupefação provoque a derrota e que a dominação equivalha a matar crianças, pois, graças a elas, tudo recomeçará já amanhã, num novo mundo cheio de milagres e comovido pelo vento de junho.
Teresa Bracinha Vieira