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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

“A máquina de fazer espanhóis” e a melancolia portuguesa

Recordamos hoje o romance “A máquina de fazer espanhóis” de Valter Hugo Mãe (Porto Editora, 2021) por ocasião da homenagem ao seu autor no Bibliotecando em Tomar que teve lugar no último fim de semana.

Sociedade antiga e complexa

Com originalidade, apercebemo-nos de como uma sociedade antiga e complexa vive inúmeras contradições. António Jorge Silva de 84 anos vê-se privado da companhia de sua mulher Laura, com quem viveu 48 anos. A perda é sentida duramente e dá lugar a uma reflexão sobre o envelhecimento, a surpresa e a angústia. Os temas são de uma atualidade premente – tudo parece estar em causa quando chegamos ao fim de um caminho, ou quando esse termo se anuncia, mas sobretudo quando não sabemos quanto restará. Silva segue o caminho previsível. Vai para um lar que tem a designação estranha e absurda de “feliz idade”. E a que assistimos? A tudo o contrário do que a designação sugere. É um modo de iludir o tempo e uma maneira de criar uma armadilha humana. O romance de Valter Hugo Mãe, quatro anos depois de “O remorso de Baltazar Serapião”. E se falo deste último sobressalto é porque, com o seu quê de antevisão, estamos confrontados nesta complexa narrativa com o que se tornou um universo concentracionário imposto por uma catástrofe que atingiu sobretudo os mais velhos e os lares onde foram confinados. E a pandemia condenou duplamente os habitantes destes lares que a “feliz idade” representa – confinou-os, proibiu-lhes o contacto com o exterior, e deixou-os mais vulneráveis, já que se tornaram bodes expiatórios de uma estranha peste, com que ninguém sabia lidar. Se isto não existia quando Valter Hugo Mãe escreveu, a verdade é que, lendo bem todos os sinais presentes no seu relato, tudo parece anunciado nas linhas e entrelinhas. E o clima sentido no romance, em vez de se ter atenuado, só se agravou – com os mais velhos a ser vistos como pesos-mortos e dispensáveis. Se os progressos da medicina permitem antever que em breve poderemos ter uma esperança média de vida próxima dos cem anos nos países ditos ricos, fica-nos uma certeza: a de que estamos cada vez mais longe da qualidade de vida, nesses armazéns de unidades dispensáveis com o prazo ultrapassado.

Vejamos o caso de Silva. Ele não se esforça por se adaptar à “feliz idade” – e a amargura pela ausência de Laura é cada vez maior. Sente intensamente o declínio das forças e do entusiasmo. E não sente sequer o gosto por lembrar os bons momentos que viveu, nem por criar novas oportunidades boas. A ausência é muito dura e o tempo produz os seus efeitos. Os corvos negros atacam-no à noite, e vão regressando sistematicamente, simbolizando a passarada negra o tempo que se esgota. Mas há o contacto com os companheiros do confinamento. A palavra confinamento foi produto da última peste, mas o romancista descreve-a, sem falar dela, por antecipação, nas condições concretas de uma existência absurda.

De quem falamos?

Quem são, afinal, os companheiros? O Pereira, os médicos, os enfermeiros, chamem-se eles Américo ou Doutor Bernardo. Deparamos com uma permanente coexistência da realidade e do sonho, de figuras concretas, de personagens de ficção e de quem tem uma existência ao mesmo tempo real e fictícia – Anísio Franco, Inspetor Jaime Ramos, Silva da Europa e um Esteves a transbordar de metafísica. São estes os participantes da história de uma sociedade doente, mas que todos teimam em não entender. A “feliz idade” é um “admirável mundo novo” ainda mais incompreensível do que todas as distopias e do que todas as utopias. O que existe e o que não deve existir misturam-se amargamente. Silva insiste na injustiça de se manter vivo. “Com a morte, também o amor devia acabar. Ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutria pela pessoa que deixou de existir”. Na relação com os outros, o outro é o que nos completa e nos define. Mas a vida e o mundo reservam-nos surpresas.

O Esteves sem metafísica

Eis o ponto em que encontramos, fora dos tempos e das circunstâncias verosímeis, Esteves, o “homem sem metafísica”, que o inesperado Fernando Pessoa, ou melhor, Álvaro de Campos, introduz no desenrolar dos encontros deste “confinamento”. É uma estranha aparição, sobretudo porque este Esteves transborda de metafísica., por ser uma projeção de Álvaro de Campos. “O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?) / Ah! conheço-o: é o Esteves sem metafísica. / (O Dono da Tabacaria chegou à porta) / Como por instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. / Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves! , e o universo / reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu…” Num pequeno clarão, a literatura parece preencher o tremendo vazio. Por momentos, a melancolia dá lugar a conversas risonhas, irónicas, como se houvesse um regresso às traquinices de crianças e jovens… Falam da dona Leopoldina e da dona Marta, fazem partidas, olham com sarcasmos tudo que os cerca. Num ápice, sem esquecer a angústia, surgem fragmentos da existência e de um certo fulgor… Mas sucedem-se lembranças da barbearia, num tempo em que se falava baixo e em que havia a PIDE e a necessidade de a iludir. Mas a polícia desse tempo usava artimanhas que levavam a que alguém, depois de salvar um jovem contestatário, fosse obrigado por razões do diabo a denunciá-lo e a condená-lo. “Salazar foi como uma visita que recebemos em casa de bom grado, que começou por nos ajudar, mas depois não quis mais ir-se embora e que nos fez sentir visita sua até que nos tirou das mãos tudo quanto pôde e que nos apreciou amaciados pela exaustão”. Ah! as lembranças misturam-se e há um sabor amargo. A melancolia do ambiente junta-se à decadência física – apesar da possibilidade de encontrar aspetos novos que permitam reencontrar uma razão de ser… Tudo isto por entre as visitas periódicas da passarada negra. E assistimos à morte do Esteves, com um ataque de felicidade, enquanto a emoção assenta na procura da razão. Sem esquecer a angústia, há motivos sérios para morder a vida e tentar iludir a perda…É precisar “deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia”… E no ambiente de perda e de ausência sucedem-se as características de quem somos: “deus é uma cobiça que temos dentro de nós”; “somos um povo de caminhos salgados”, “lugar de gente desconfiada”, com “a promoção da beleza de se ser pobrezinho”. Que importa a “feliz idade”? Praticamente nada. “Não sou nada. / Nunca serei nada. Não posso querer ser nada / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Ao longe ouvimos Almada a dizer provocatoriamente – “Se o Dantas é português eu quero ser espanhol…” Bernardo Soares, mal compreendido, liga o seu patriotismo apenas à língua portuguesa e a nada mais e Eduardo Lourenço enaltece a “maravilhosa imperfeição”. O Esteves sem metafísica trazia agarrada à sua pele esta voz crítica. E então aparece-nos um companheiro essencial, Enrique de Badajoz de Portugal – o espanhol que quer ser português. E a ausência de metafísica do Esteves da “Tabacaria” transforma-se em metafísica plena, transbordante. “Depois de comentar como poderia ser melhor a cidadania espanhola – na cabeça daquele homem (o espanhol) a tradição deste lado da fronteira cumpria mais adequadamente os seus anseios”. E entre os povos ibéricos surge uma relação de espelho. Enrique de Badajoz de Portugal quer ser português, considera-se mesmo português, em contraponto à máquina de fazer espanhóis do lado de cá. Afinal, a insatisfação é partilhada – e reforçam-se mutuamente os sentimentos aparentemente contraditórios. Ser o outro torna-se um desejo intenso.

E ouvimos o Silva dizer finalmente (e escrevo maiúsculas porque estou a citar): “naquela altura eu queria gritar. Precisava de dizer que me arrependia, que não queria acabar sem metafísica, que me enterrassem com a metafísica e português. Arrependia-me do fascismo e de ter sido cordeiro tão perto da consciência, sabendo tão bem o que era o melhor valor, mas sempre ignorando, preferindo a segurança das hipocrisias instaladas. Eu precisava gritar dizendo que queria morrer português, com a menoridade que isso tivesse de implicar”. A angústia tem a ver com o apelo contraditório. O pedido é claríssimo e chamava-se dignidade – “não me tirem a consciência do amor e da sua perda”… E Valter Hugo Mãe coloca-nos deste modo perante quem somos e perante todos os nossos mistérios, profeticamente.


Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

Comentário sobre ““A máquina de fazer espanhóis” e a melancolia portuguesa

  1. Gostei de relembrar o António “Silva segue o caminho previsível. Vai para um lar que tem a designação estranha e absurda de “feliz idade”. E a que assistimos? A tudo o contrário do que a designação sugere” volvidos 10 anos da leitura da escrita do Walter H. Mãe a situação absurda do fim dos “velhinhos” (com diz o Dr.Sobrinho Simões) piorou, certo estava o “Silva insiste na injustiça de se manter vivo”
    Bem haja Prof.
    Maria Helena

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