auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

Homem idoso a ler no café de Lisboa.jpg

 

255. A REALIDADE NOS MEDIA

 

A realidade faz-se do que é comum, usual, normal, não do incomum, raro e anormal.

A realidade faz-se da regra e não da exceção.

A “realidade” de uma estrada ou autoestrada é circularem lá veículos automóveis, a toda a hora, dia e noite, todo o ano, num sentido e noutro. Esse lado useiro e vezeiro é a sua realidade e a sua verdade.

Isso não é notícia nos meios de comunicação social. Mas se as pessoas cortarem vias rodoviárias, aí fizerem concursos, exposições ou eventos desportivos, ou se passearem ou deixarem à solta animais de estimação, fugidos do circo ou de jardins zoológicos, isso já é notícia e será noticiado, preenchendo os telejornais, informação da rádio, páginas dos jornais e da internet, incluindo redes sociais.

Quando os políticos ou personalidades influentes são ameaçados, agredidos e insultados publicamente há sempre notícia, que se sobrepõe a usuais manifestações de apoio, de simpatia, discursos de circunstância ou comícios preparados.

Nas habituais seleções de imagens que a imprensa faz das campanhas eleitorais, as imagens brejeiras, atrevidas e injuriosas têm lugar garantido, porque tidos como episódios marcantes para as eleições em geral e em particular para a eleição deste ou daquele político.

O que é banal e rotina não é notícia. Só o é o que deslumbra, surpreende, choca, é chamativo, desgarrado, fortuito, impactante e insólito, escapando e sobrepondo-se ao normal e à regra.

Uma frase ou notícia negativa chama muito mais a atenção do que uma positiva.

Uma mensagem positiva é menos chamativa do que uma negativa.

Uma informação politicamente ou socialmente incorreta é mais noticiada e impactante que uma normal.

Há o exemplo clássico de que é notícia o homem que mordeu o cão, e não se foi mordido por um cão.

A competição crescente na área mediática agrava a tendência, titulando-se a informação e a notícia com mais agressividade e capacidade de causar a surpresa que marcará a diferença e em cujo impacto reside, tantas vezes, o enigma do sucesso ou insucesso de um determinado órgão de comunicação social.

Se o que é notícia é a exceção e não a regra, não admira que seja a própria natureza dos media a distorcer a realidade, selecionando o que é anormal e excecional, dando-nos uma imagem não real da realidade.

 

10.04.26

Joaquim M. M. Patrício

2 comentários sobre “CRÓNICAS PLURICULTURAIS

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *