
255. A REALIDADE NOS MEDIA
A realidade faz-se do que é comum, usual, normal, não do incomum, raro e anormal.
A realidade faz-se da regra e não da exceção.
A “realidade” de uma estrada ou autoestrada é circularem lá veículos automóveis, a toda a hora, dia e noite, todo o ano, num sentido e noutro. Esse lado useiro e vezeiro é a sua realidade e a sua verdade.
Isso não é notícia nos meios de comunicação social. Mas se as pessoas cortarem vias rodoviárias, aí fizerem concursos, exposições ou eventos desportivos, ou se passearem ou deixarem à solta animais de estimação, fugidos do circo ou de jardins zoológicos, isso já é notícia e será noticiado, preenchendo os telejornais, informação da rádio, páginas dos jornais e da internet, incluindo redes sociais.
Quando os políticos ou personalidades influentes são ameaçados, agredidos e insultados publicamente há sempre notícia, que se sobrepõe a usuais manifestações de apoio, de simpatia, discursos de circunstância ou comícios preparados.
Nas habituais seleções de imagens que a imprensa faz das campanhas eleitorais, as imagens brejeiras, atrevidas e injuriosas têm lugar garantido, porque tidos como episódios marcantes para as eleições em geral e em particular para a eleição deste ou daquele político.
O que é banal e rotina não é notícia. Só o é o que deslumbra, surpreende, choca, é chamativo, desgarrado, fortuito, impactante e insólito, escapando e sobrepondo-se ao normal e à regra.
Uma frase ou notícia negativa chama muito mais a atenção do que uma positiva.
Uma mensagem positiva é menos chamativa do que uma negativa.
Uma informação politicamente ou socialmente incorreta é mais noticiada e impactante que uma normal.
Há o exemplo clássico de que é notícia o homem que mordeu o cão, e não se foi mordido por um cão.
A competição crescente na área mediática agrava a tendência, titulando-se a informação e a notícia com mais agressividade e capacidade de causar a surpresa que marcará a diferença e em cujo impacto reside, tantas vezes, o enigma do sucesso ou insucesso de um determinado órgão de comunicação social.
Se o que é notícia é a exceção e não a regra, não admira que seja a própria natureza dos media a distorcer a realidade, selecionando o que é anormal e excecional, dando-nos uma imagem não real da realidade.
10.04.26
Joaquim M. M. Patrício
Muito boa reflexão, entende-se portanto a crescente popularidade dos populistas!
Grato pelas palavras e partilha de opinião.
Boas e gratificantes escolhas de leituras nos tempos livres.