auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

Categories

Artigos de Opinião

PENSAMENTO E DEMOCRACIA

a8a217a8-e4b4-4bdc-bf54-df1584bca72c.jpg
  Jürgen Habermas

 

É importante falar de “patriotismo constitucional” e de “democracia deliberativa”, não apenas nos Estados nacionais, mas também na realidade supranacional europeia, sobretudo num momento em que a dúvida se confunde com a descrença, e em que o desalento e o mal estar alimentam a desistência. “A verdade não existe no singular”, pelo que a legitimidade democrática deve ligar-se à mediação das instituições e ao envolvimento dos cidadãos. Quem o diz é Jürgen Habermas (1929-2026), que há pouco nos deixou, lembrando as origens da União Europeia, como construção de paz e desenvolvimento, capaz de integrar as diferenças, tendo em conta a memória histórica, numa perspetiva de responsabilidade pessoal.

 

Assim, o jovem filósofo Habermas ousou afrontar Heidegger, em 1953, num texto fundamental com o título “Pensando com Heidegger contra Heidegger”. Então, acusava o velho pensador não por recusar a igualdade democrática, mas pela ausência de autocrítica sobre o seu envolvimento político e pelo facto desse silêncio contaminar irremediavelmente a atitude filosófica. Afinal, a principal tarefa dos que se dedicam ao ofício de pensar é a de fazer luz sobre os crimes que se cometeram e manter desperta a consciência sobre eles? Lembrar o terror para que não volte a acontecer, mas evitar o ressentimento e a vingança. Desafiado, Heidegger evitaria a polémica e responderia que a sua preocupação tinha a ver com a relação entre o homem e a técnica. Mas Habermas contraporia que a sua crítica não tinha a ver com o envolvimento político com o nacional-socialismo, mas com a teimosia em não reconhecer o seu erro. No fundo, “a discussão sobre o comportamento político de Martin Heidegger não poderia nem deveria servir propósitos de difamação e desprezo sumários, já que como nascidos depois, não podemos saber como nos teríamos comportado nessa situação de ditadura”.

 

J. Habermas chamaria ainda a atenção de Theodor W. Adorno com um texto publicado na revista “Merkur” intitulado “A dialética da racionalização”, no qual analisava a alienação gerada tanto pelo trabalho numa cadeia de montagem, como no consumo sem limites. E premonitoriamente avisava: «da produção ao transporte, passando pela comunicação ou pelo ócio, a “cultura das máquinas” terminará por dominar as nossas vidas». No entanto, a democracia deveria resultar de um debate continuo entre cidadãos com vista a produzir uma legitimidade submetida ao “melhor argumento”. Nesse sentido é que a responsabilidade crítica marcará a decisiva importância do pensador na atualidade. Daí a necessidade de domesticar o capitalismo com a democracia, garantida através de um Estado de direito com “rosto social”, superando o “pessimismo antropológico” que caracterizara os primórdios da Escola de Frankfurt. Os conceitos de conhecimento, liberdade e progresso constituem valores de uma razão ilustrada, no contexto da “modernidade”, como “projeto inacabado”, por contraponto à pós-modernidade… Ficou na memória a célebre conferência proferida na Fundação Gulbenkian em 2013 e a publicação pela instituição de Transformação Estrutural da Esfera Pública e de Uma Outra História da Filosofia (2 volumes) em edições especialmente cuidadas. “Se me resta um traço de utopia, ele reside na conceção de que a democracia (e o debate público nas suas melhores formas) tem a capacidade de quebrar o nó górdio de problemas quase praticamente insolúveis”. A memória do mestre continua a ecoar naquelas paredes.

 

GOM

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *