1. Os intelectuais seculares proclamavam, “ab initio”, um especial fervor pelos interesses da humanidade, um dever caritativo de a fazer progredir, mediante ensinamentos e orientações, iluminando-a com o conhecimento produzido pela filosofia e ciência, não se sentindo limitados pelos cânones da autoridade exterior, manifestada pela herança da tradição ou estrutura de qualquer religião revelada.
Não eram súbditos ou intérpretes dos deuses, mas mais seus substitutos, que usavam unicamente o seu próprio intelecto, sem ajuda externa.
O seu herói e referência maior era Prometeu, que roubou aos deuses do Olimpo o fogo sagrado e o trouxe para a Terra, dando-o à humanidade, permitindo o desenvolvimento civilizacional dos humanos que, assim, poderiam ser metamorfoseados para melhor
Os códigos prescritivos de experiências, sabedorias e legados ancestrais passaram a ser seletivamente seguidos ou totalmente preteridos, de acordo com aquilo que o seu próprio bom senso (diferente do senso comum) lhes ditasse.
O escrutínio crítico e duro a que submeteram a religião e os seus protagonistas, foi uma das suas caraterísticas mais relevantes.
Eram os intelectuais universais, que prescreviam comportamentos e formas de pensar tidos como globais, como Jean-Jacques Rousseau, Tolstoi, Bertrand Russel, Sartre ou, entre nós, António Sérgio.
Com o fim da segunda guerra mundial houve uma transferência de ênfase da utopia para o hedonismo, traduzindo uma mudança marcante do principal querer dos intelectuais seculares, a que acresce, a partir dos anos 50 e 60, a fuga a comportamentos e modos de pensar para se passar a interpretar, cada vez mais, diferentes legados culturais ou linguagens, onde sobressai o intelectual-intérprete, já não universal, mas específico, de que Edward Said é um seu expoente, com a sua tese sobre o orientalismo.
2. Com a chegada do século XXI, as instituições que monopolizavam a vida intelectual desde o século XIX (universidades, livros, imprensa escrita) viram-se ameaçadas por novas organizações, menos hierárquicas e mais funcionais, como os think-tanks, sem ligações à academia, com uso profícuo dos novos media, com novas formas de comunicação que fazem chegar a mensagem a milhões de pessoas, mudando comportamentos e influenciando agendas culturais, sociais e políticas.
O que se traduziu numa aversão gradual ao pensamento abstrato, aos intelectuais e às instituições a eles associadas, com as redes sociais e um mundo digital que comunica e informa instantaneamente, sem esquecer a fuga da razão e exemplos de má cidadania de tantos que, em teoria, são referências humanistas, morais e éticas o que, na sua vida real, muitas vezes, é pura ficção.
3. Com séculos de história, o anti-intelectualismo sempre existiu, com perseguições, prisões, condenações e mortes de intelectuais, destruição das suas obras e fogueiras de livros, pelo que está aí para durar, adaptado aos tempos que vivemos.
Diz-se que a verdade saiu à rua, é de todos.
Que é cada vez mais difícil devolvê-la ao mundo académico e às instituições, dado o seu elitismo, hermetismo e relação hierárquica.
Que dizer da frivolidade, preconceitos, argumentação errática, vocabulário exíguo e repetitivo, que coabitam e pululam nas redes sociais, nesse mundo digital instantâneo onde, crescentemente, somos substituídos, no pensar, por algoritmos e inteligência artificial?
Se é verdade que os intelectuais não têm o monopólio da cultura, dos valores e da verdade, não podem desobrigar-se de denunciar e filtrar o que consideram como uma ameaça que pode ser destrutiva.
Não aprender com pessoas e instituições dedicadas à investigação e produção de pensamento e do conhecimento, na área da cultura, dos valores e da verdade, é um contrassenso, um recuo civilizacional, uma tragédia pelas oportunidades que cria à exploração demagógica e populista das emoções, mesmo assumindo que os intelectuais não são portadores do saber absoluto e, como humanos, são imperfeitos, embora perfectíveis.
Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 271