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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Crónica da Cultura

Cartas de setembro III

Avô, meu muito avô, meu saber, minha companhia, meu mar violeta,

Quero dizer-te que pensei imensamente nas tuas palavras. Ando com elas em mim. Releio a tua carta sempre que posso e nunca me é o bastante.

Dizes que só há de real o haver aspetos de uma realidade e eu, esta tua neta que se atreve sempre a dizer-te o que pensa porque tu és o meu bendito avô, responde-te que não me parece que tenha essa crença, nem sequer a contrária.

Quando leio um poema, que poema seja mesmo, tudo se apaga à volta porque ali está tudo e, ao mesmo tempo, tudo me foge dali, porque o espírito do poeta não se contém onde nunca eu estive, e em mim estas realidades são indefiníveis para sempre.

A realidade é para mim um horizonte que inclui o que nele incluo e o resto, meu avô, o resto é estar contigo em silenciosas e conversadoras inconfidências, é sentir que tu és e sempre foste o meu primeiro volume de tudo.

Mas, às vezes, às vezes não me reconheço, meu amado avô, tão exterior a mim me coloco e logo fico a perguntar-me quem sou e se quero ser quem não sou, ou se sou quem tu amas apenas num aspeto da tua realidade.

Avô:

O que é tão difícil em pegar nos meus sonhos e suceder-me dentro deles? E, se assim acontecesse, nada disso poderia ser real. Afinal nascemos órfãos de muitas coisas, não é, ou fugimos sempre para o mesmo lugar e continuamos a persistir?

Avô:

Hoje, queria um comboio calmo. Mas, como dizes, nem o Natal é calmo; a certa altura, já nem sabemos em que prendas enovelamos os descaminhos, e, nos olhares lúcidos e difusos, aguardamos que o pão na mesa — e ela mesma — seja o tudo e assim nos baste na presença e no extravio.

E, afinal, é tudo isto que nos dá asas. É por tudo isto que o teu mar em mim é violeta.

Sou

esta tua neta que te abraça muito

Gilda

Teresa Bracinha Vieira

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