Avô, meu muito avô, meu saber, minha companhia, meu mar violeta,
Quero dizer-te que pensei imensamente nas tuas palavras. Ando com elas em mim. Releio a tua carta sempre que posso e nunca me é o bastante.
Dizes que só há de real o haver aspetos de uma realidade e eu, esta tua neta que se atreve sempre a dizer-te o que pensa porque tu és o meu bendito avô, responde-te que não me parece que tenha essa crença, nem sequer a contrária.
Quando leio um poema, que poema seja mesmo, tudo se apaga à volta porque ali está tudo e, ao mesmo tempo, tudo me foge dali, porque o espírito do poeta não se contém onde nunca eu estive, e em mim estas realidades são indefiníveis para sempre.
A realidade é para mim um horizonte que inclui o que nele incluo e o resto, meu avô, o resto é estar contigo em silenciosas e conversadoras inconfidências, é sentir que tu és e sempre foste o meu primeiro volume de tudo.
Mas, às vezes, às vezes não me reconheço, meu amado avô, tão exterior a mim me coloco e logo fico a perguntar-me quem sou e se quero ser quem não sou, ou se sou quem tu amas apenas num aspeto da tua realidade.
Avô:
O que é tão difícil em pegar nos meus sonhos e suceder-me dentro deles? E, se assim acontecesse, nada disso poderia ser real. Afinal nascemos órfãos de muitas coisas, não é, ou fugimos sempre para o mesmo lugar e continuamos a persistir?
Avô:
Hoje, queria um comboio calmo. Mas, como dizes, nem o Natal é calmo; a certa altura, já nem sabemos em que prendas enovelamos os descaminhos, e, nos olhares lúcidos e difusos, aguardamos que o pão na mesa — e ela mesma — seja o tudo e assim nos baste na presença e no extravio.
E, afinal, é tudo isto que nos dá asas. É por tudo isto que o teu mar em mim é violeta.
Sou
esta tua neta que te abraça muito
Gilda
Teresa Bracinha Vieira