Pois é, Maria Amélia, é mesmo como dizes.
Muitas doenças tremendas desceram sobre esta civilização. Parece o desastre de tudo quanto se sonhara; aparenta não haver espaço para vida digna ou para uma sociedade que não seja vil. Mas não quero crer que a alma tenha sido devorada por outros e por nós mesmos e que apenas o que dela resta, meio vomitado, tenha assumido a regência do mundo.
A história mostra-nos que as forças criadoras não vão à falência, nem se tornam estéreis, nem se finam por morte súbita. Mas há, sim, que cuidar para que a inteligência criativa não tenha sensibilidade de escrava, nem com ela coexista pacificamente.
Há que não aceitar um belo inferior, um belo aborrecido, preguiçoso, tedioso, distraído, que abdica de se incomodar, de se indisciplinar.
Há que acreditar que se vive à beira-mar, e bem julgo que não há filosofias que expliquem o quão intenso é este cio.
Minha cara Maria Amélia,
Talvez a glória de vencer esteja no esforço de vencer, na emoção de criar uma civilização digna da audácia dos audazes, no saber arcar com monstros e medos, e que na viagem dos diálogos da humanidade não se apartem os lares de tudo o que faz de nós todos terras-novas.
Julgo conhecer o quanto, em geral, somos criaturas dos interstícios das divisões sociais, mas isso não nos despe do mistério que nos faz portadores de uma sede de futuro, de uma gana de fome de quem não tem telhado e vai sempre convalescendo do que realmente nos move.
Maria Amélia,
Muito me deixas feliz com as tuas cartas; devo agradecer-te sempre esta realidade e podes crer que deveras anseio que, das minhas, não esperes mais do que as palavras que acredito serem suficientes, pois por mais não consigo.
Saudades aos molhos te envio.
Gilda
Teresa Bracinha Vieira