Afonso,
Dizes-me na tua carta que te sentes a uma grande distância de tudo, não sabendo se agora apenas a tua contemplação é destino. Referes também que te experimentas alheio, sujeito às fatalidades para as quais atleta te não adivinhas, mas que é setembro.
E sim, é setembro, querido Afonso.
Se te recordas, em setembro explorávamos todos os países desconhecidos e batizávamos cada um de acordo com a paisagem do dia, e íamos.
Bem creio que hoje a nossa distância desses países é muito próxima da mesma de então, e que o que era nosso entendimento e vontade de partir reside hoje na contemplação que referes, que continua a ser um partir e que é, sim, da natureza do destino.
No entanto, não me pareceu, no sentir das tuas palavras, que possas estar alheio ao que te rodeia; antes, conheces os poentes como nunca e sabes que requerem silêncio, por vezes, igual ao das estátuas, mas daquelas que conhecem a sua íntima substância, a sua mira.
Afonso,
tínhamos acordado, quando fomos ao país das montanhas altíssimas, que nenhum de nós era atleta para lhes chegar ao cume, mas, afinal, também não fomos comuns: ambos viajámos por dentro de doenças gretadas que muito nos excederam e ambos lhes fizemos barragens metafísicas, conquistámos-lhes os processos e, ainda que sempre sem seguranças, chegámos a setembro de novo e ante tudo isto as vindimas já começaram e precisamos desta felicidade indispensável à vida que é, para nós, o que concebemos nela.
Recordo muito as cartas que trocámos, perguntando-nos se os sonhos tinham esquinas, e têm, sim, tal como as ruas; e concordámos que também têm árvores e sossegos nos nossos corações de pequeninos, aos quais regressamos muito, muito pela literatura.
E abraço-te, abraço-te sempre de dentro daquele barco de papel, dobrado em bicos, e abraço-te, navegadora de mim, e penso-te sempre a vaguear, de tão certo que muito te enganas, tal como eu, naquela expedição que se incorpora e se integra no movimento da alma.
Gilda
Teresa Bracinha Vieira