Folhetim de Verão – Capítulo XXVI
Continuamos a ouvir Joana Cunha Leal no sítio do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian…
«Também em 1914, antes de deixar Paris para passar o Verão em Portugal, como era habitual, Amadeo volta a mudar de atelier para a Vila Louvat, no nº 38 bis da rua Boulard. Não chegou todavia a utilizar este espaço. Após uma breve passagem por Barcelona em que visita o seu amigo, escultor, León Solá, e conhecerá Gaudí, Amadeo regressa a Manhufe, onde será surpreendido pelo deflagrar da Guerra que o impedirá de regressar a Paris. A estadia forçada de Amadeo em Portugal não foi sinónimo de apatia criativa. Se ainda em Paris a sua obra explorara os domínios da abstração e, depois, enveredara por vias de compromisso expressionismo, o exílio em Portugal acabará por constituir-se como um momento de plena maturação da sua pintura, que se aproximará então de muitas das questões equacionadas no domínio da colagem.
Em 1915, o isolamento de Amadeo em Amarante foi quebrado pelo contacto com Sonia e Robert Delaunay, que a Guerra fizera também, inesperadamente, aportar a Vila do Conde. Por esta via, o círculo das suas relações recupera Eduardo Viana e alarga-se a Almada Negreiros. No seio deste núcleo de amizades geram-se diversos projetos, nomeadamente a criação de uma Corporation Nouvelle destinada a promover exposições internacionais itinerantes, ideia que nunca chegou a concretizar-se. Entretanto, através de Almada, Amadeo entra em contacto com o grupo dos “Futuristas” lisboetas, reunidos inicialmente em torno da revista Orpheu.
Na batalha pela agitação do meio artístico português, Amadeo teve um papel discreto mas relevante. No final de 1916, numa conhecida entrevista que deu ao jornal O Dia, parafraseia largamente os manifestos de Marinetti. Não que as propostas do Futurismo o cativassem enquanto solução formal. A postura radical e modernista com que o movimento era identificada em Portugal, convinha todavia a Amadeo como forma de intervenção e motor de rutura com as estruturas tradicionalistas dominantes, que o haviam atacado por ocasião das suas duas únicas exposições realizadas em vida em Portugal.
Em Dezembro de 1916, Amadeo promoveu, primeiro no Porto e depois em Lisboa, uma mostra em que reuniu sob o título de Abstraccionismo 114 pinturas. O desfasamento da cultura estética nacional impediu uma receção favorável das propostas pictóricas de Amadeo, ganhando os certames uma aura de escândalo (coroada no limite pela agressão física ao pintor). Neste contexto importa destacar o protagonismo de Almada Negreiros e Fernando Pessoa na sua defesa pública. Ambos o reconheceram como o pintor mais significativo do seu tempo. Mas não deixaram de ser manifestações excêntricas e isoladas.
Amadeo morreu em Espinho em Outubro de 1918, vítima da epidemia de pneumónica que deflagrou nesse ano. Tinha apenas 30 anos».
Propositadamente transcrevemos ipsis verbis as palavras acertadas de Joana Cunha Leal. Fazemos uma tripla homenagem. Em primeiro lugar à Fundação Gulbenkian que deu eternidade à memória do génio, contra dúvidas do Estado; em segundo lugar a Amadeo de Souza-Cardoso e ao grupo do Orpheu, que ganha uma legitimidade reforçada no contexto internacional. A Fundação Gulbenkian foi fiel à lucidez do seu fundador, descobrindo em Amadeo um génio do jaez de Lalique. Em terceiro lugar, a Almada Negreiros, autor do painel Começar foi, ao lado de Fernando Pessoa quem deu um sentido universalista à Geração do Orpheu que ganhou com Amadeo um direito que se projetou para além da dimensão nacional ou de grupo.
(Continua)
