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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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António Ferro © Fundação António Quadros

Um jornalista em ação

Folhetim de Verão – Capítulo XXIII

Não compreendemos o período entre 1915 e 1945 em Portugal sem a presença de António Ferro, primeiro como jornalista e depois como responsável político. E António Quadros definiu com o rigor necessário seu Pai: “Porque está vivo ainda António Ferro? Se conseguirmos resolver os aparentes paradoxos do seu pensamento e da sua ação. Se lograrmos atingir a harmonia das múltiplas manifestações da sua riquíssima personalidade, depressa compreenderemos que nele e por ele se realizou uma rara alquimia: foi um homem que assumiu inteiramente até ao absoluto, a representação do seu tempo e da sua época; foi um homem que, simultaneamente, assumiu a representação do seu espaço ou da sua pátria”. Sem dúvida inovador e consciente das mudanças paradoxais que tinham lugar, nas artes e na política, soube encontrar caminhos originais, ligando o talento próprio, o conhecimento do mundo e das pessoas e a especificidade de uma cultura, cosmopolita em termos positivos e demarcada do provincianismo. Os ecos de Bernardo Soares estavam bem presentes.

Afinal, para compreendermos António Ferro, devemos lê-lo e segui-lo na sua determinação, mas também na sua ironia e na sua paradoxal indiferença, que não é o defeito da desatenção, mas a capacidade de abstrair do quotidiano para chegar ao essencial. “Não discuto. Discutir seria duvidar de mim próprio” – disse um dia. “Falhar é ter um ideal tão alto que não se atinge”… Esta era a sua indiferença na procura dos anaforismos de um inconformismo militante, capaz de superar o mero relativismo. Em “Idade do Jazz Band” (1922) disse “Eu vivo a minha época como vivo a minha pátria, como vivo dentro de mim (…) Eu não compreendo, de modo algum, a saudade doentia das outras épocas, a nostalgia das idades mortas, certa ronda de fantasmas, lamurienta e sinistra que anda para aí – fox-trot de esqueletos mutilados… Ter saudades dos séculos que morreram é ter vivido nesses séculos, e não ser de hoje e andar a fingir ao vivo”. Eis por que a recordação de Ferro hoje deva ser não a de uma abstração mas a um apaixonado da vida e da ação concreta de um caleidoscópio de mil imagens inatingíveis”. Tinha uma intuição muito nítida sobre um tempo que obrigava a entender o movimento, a velocidade (como na Ode Triunfal de Campos), mas também as misteriosas raízes, como fica evidenciado na “Nau Catrineta”. O Portugal histórico coexiste com o País mítico. O lirismo coexiste com a tragédia, e ambos com o picaresco da pequena anedota. Nunca esquecemos o que Tabbuchi descobriu na personagem de Maria Parda, que Gil Vicente encontrou ao lado de todos quantos povoam o Auto da Barca do Inferno. Não é um país ideal, mas um conjunto aspetos positivos e negativos. Há uma permanente recriação, como aconteceu com os galos de Barcelos, com a intervenção criativa do próprio Ferro. E longe de seguir apenas a tradição, havia que conquistar a modernidade, com Almada, Amadeo, Sá Carneiro e naturalmente Caeiro, Campos, Reis e o próprio Pessoa / Bernardo Soares.

Cabe à historiografia, com rigor e objetividade, dizer qual o lugar de cada um no seu tempo e na sociedade. António Ferro marcou indiscutivelmente. Não iludiu o seu pensamento e as suas convicções. Rodeou-se de quem produziu obra relevante. Correu riscos, acertou e errou, como qualquer humano. O fim da Guerra mudaria tudo. Como poderemos defini-lo? O tema destas reflexões reporta-se à influência dos passos primeiros do jovem amigo de Mário de Sá-Carneiro. E poderemos concluir com três ideias simples: António Ferro amou o seu tempo e sentiu no íntimo de si a pulsão da modernidade; como jornalista cultivou a plasticidade das palavras e o seu jogo vertiginoso (ou não considerasse o cinema como a arte do movimento por excelência e o jazz como a criatividade em ação); a ordem e o paradoxo inebriavam-no, pelo que não sabia viver sem os artistas de quem gostava… Um dia Luigi Pirandello, a convite de Ferro assistiu à estreia de “Douro Faina Fluvial” de Manoel de Oliveira. A obra-prima ainda não podia ser entendida. Houve uma grande pateada, para escândalo de Pirandello e do próprio Ferro. O dramaturgo usou da melhor ironia: “Não sabia que em Portugal se confundem os pés e as mãos”…

(Continua)

» Nau Catrineta que tem muito que contar… no Facebook

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