Romantizar a natureza é despi-la do caos, do horror, da violência, da força bruta no seu estado natural e puro, do seu poder altivo, indomável e inconquistável, através de calamidades, cataclismos e catástrofes.
É retirar-lhe a lei do extermínio, do medo, do leviatã e da selva em terra, nos mares e nos ares, proibir abater sem piedade os animais mais fracos e doentes, que a mãe natureza, no seu estado rude e natural, impiedosamente elimina, tal como os criadores de animais o fazem em nome da robustez e vitalidade do rebanho, da família, do grupo, da tribo
A beleza e o encanto da natureza não é apenas um guia e um incentivo em busca do bem que há dentro de nós, ou que procuramos em nós, dado que a sua “amabilidade” e “docilidade” nem sempre é sustentável, como quando nos confrontamos com o seu mal natural, tal a fúria das suas tempestades, relâmpagos, trovões, inundações, incêndios, terramotos, tsunamis, que uma visão humana, amoral e naturalista das coisas aproveita e aprova para legitimar bombardeamentos, carnificinas, belicismos, militarismos, atrocidades e destruições causadas pela guerra.
Se não podemos erradicar esta lógica cruel do estado da natureza, que fazer?
Resta apelar ao seu lado belo e bom e, com a sua ajuda, “domesticá-la”, “civilizando-a”.
Sempre houve uma mundividência intelectualizada, privilegiada, urbana, alegadamente culta e civilizada, que elogiou, mitificou e santificou a natureza, vendo nela uma mãe benevolente, constituída e idealizada por ar puro, cursos de água, lagos, aves, flores, prados verdes, o azul que nos cobre, a alegria dos montes e a vida das fontes sob o sol ardente, num antídoto indispensável frente à intoxicação decorrente da vida citadina.
Sucede que nem sempre a natureza nos incute a possibilidade de procurar na vida e uns nos outros o que há de bom e saudável, dada a sua imperfeição, à semelhança do acontece com os humanos, onde o bem e o mal também convivem entre si.
Se nem a natureza e os humanos são benévolos por condição, ou portadores de um bondadismo apelativo, constatando-se que o progresso material, científico e técnico não trazem consigo, necessariamente, o progresso moral e ético, isso não significa que, graças à força das ideias, não possamos criar uma sociedade melhor.
Sabendo-se que o ser humano tem caraterísticas permanentes, como o bem e o mal, são as suas qualidades que devem ser cultivadas, e não o inverso, mesmo que tenhamos que nos civilizar, com a natureza, criando sociedades que anseiam ser a negação do modelo darwinista, mas compreendendo sempre que não podemos romancear a natureza no seu todo, embora ambos perfectíveis, se quisermos e soubermos.
Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 270
Senhor Dr Joaquim Patrício!
Obrigada pela sua crónica. Remete para o passado longínquo, para o presente e para o futuro, na natureza, incluindo o homem. Quantas vezes, não disse já que na agricultura, arrancávamos as ervas daninhas?
Mais ilustrativa, é ainda a história do velho índio Cherokee a ensinar o seu neto sobre a vida “Está a acontecer uma luta dentro de mim. É uma luta terrível entre dois lobos: um mau e outro bom”
O neto perguntou “E qual dos lobos é que vence?” E o avô respondeu: “Aquele que alimentares mais.”
Grato pela leitura e comentário da crónica, sem esquecer, a propósito, o seu testemunho campestre e pessoal.
Gostei muito desta reflexão. Muitas vezes olhamos para a natureza apenas pela sua beleza e esquecemo-nos de que ela também é força, imprevisibilidade e contraste. Este texto fez-me pensar que não devemos confundir a natureza com um ideal de perfeição, mas antes aprender com ela, sem deixar de cultivar o melhor da nossa humanidade.
Grato pela leitura e assertividade do comentário, o que se assinala, e desejos de continuação de boas leituras.