1. Se há humanos insensíveis ou apáticos, há-os que espiritualizam e animam todas as coisas, desde os seres animados aos inanimados, com eles interagindo numa fértil imaginação e sensibilidade.
Todos os dias, meses ou anos, nasce um longo, ininterrupto e permanente contacto que cria afeição e amizade pelas coisas, em especial algumas, como o lar onde nascemos, o nosso domicílio, plantas, animais que nos rodeiam e associações de imagens ou recordações da nossa própria vida. E se há coisas inconstantes que todos os dias se renovam e transformam, como os jornais, há-as que são constantes, leais e sólidas, não envelhecem, o que dizem agora e hoje, dirão amanhã ou doravante: os livros.
Os livros são, para muitos, de entre os seres inanimados ou semi-mortos, os nossos amigos mais úteis, presentes na alegria e na tristeza.
Mas para serem o nosso mais fiel amigo há que os ler, mantendo vivos bons hábitos de leitura.
2. Reconhecendo-se que a leitura é uma necessidade vital para qualquer sociedade que queira pensar com profundidade, não pode limitar-se a dar informação ou a ocupar os tempos livres de um modo rápido e superficial, dado exigir demora e privacidade para educar e formar o pensamento.
Vivemos em sociedades expostas a um excesso de informação, onde a sua triagem é cada vez mais penosa, tocando em muitas temáticas e mergulhando em poucas, onde há que privilegiar a profundidade em desfavor da superficialidade, em que a leitura está bem posicionada para uma interpretação crítica associada ao desenvolvimento formativo e de competências cognitivas superiores.
O que exige uma leitura demorada, intimista e profunda, num exercício de profundidade que estrutura, organiza e densifica o pensamento, formando cidadãos críticos e leitores contínuos e profundos, não concorrendo com a tecnologia, a aceleração de pensar nas redes sociais, a mera leitura nos tempos livres, mas funcionando como contrapeso cognitivo, equilibrando e contrabalançando excessos.
3. E se para alcançar esse fim o essencial não é o suporte, físico ou digital, mas sim a criação e manutenção de hábitos de leitura, colocando o livro no centro da vida cultural e educativa, não é menos verdade que os estudos provam que a leitura física tem melhores níveis de compreensão, sentido crítico e retenção cognitiva, desde logo em crianças, jovens e leitores profundos, indiciando-se que o digital pode complementar, mas não substituiu, até agora, a leitura como um desempenho de profundidade.
É um ler devagar e profundo num mundo velocista e num tempo com pressa, em que ainda há pessoas que vão presencialmente às livrarias adquirir livros e consultá-los em bibliotecas (e nem tudo está na internet), comprando-os (e jornais e revistas) em papel, fazendo este bem aos olhos e por eles tendo mais amor.
Como há clientes de lojas, restaurantes, quem vá ao cinema, teatro, etc, comprando coisas que sedentariamente encomendariam on line ou veriam em streaming, não virando as costas a tudo o que se fez sem internet, aumentando a oferta, sendo graças a tais pessoas que há mais possibilidades de escolha, muito mais para ver, fazer e sair de casa, interagindo com o exterior.
Tudo rumo a um equilíbrio entre o surfar à superfície da informação e o mergulho transformador de leituras como um exercício de profundidade que mais eficazmente forma leitores profundos e críticos.
Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 272