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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Afinal, tudo começou com Sophia

Folhetim de Verão – Capítulo XXXI

Terminamos o Folhetim de Verão de 2026 com a referência a Sophia de Mello Breyner Andresen. Começamos por recordar a jovem a decorar o poema do romanceiro com seu Avô D. Tomás de Mello Breyner. Não poderia ser melhor esse começo…

Clássica e moderna, encontra e prolonga Fernando Pessoa por um caminho próprio e diferente. E Eduardo Lourenço afirmou certeiramente que “desde os tempos de Pascoaes, a poesia portuguesa esforçava-se por conciliar Apolo e a sua mítica expressão solar da vida com Cristo, sombra sob tanto excesso de sol, deus morto para que a morte não fosse confundida com a vida digna desse nome. Se essa conciliação teve lugar em algum lugar foi na poesia de Sophia”. Sentimos a coexistência de Atenas e Jerusalém. Daí ter nascido “precocemente clássica”, talvez fora de uma modernidade, por definição em crise, mas ciente da importância dos novos caminhos em busca da dignidade do Ser. E assim, ainda segundo o ensaísta da “Heterodoxia”, Sophia chega a Nietzsche e à ligação dionisíaca, através de um “Cristo Cigano” – que não espera que o crucifiquem e que se oferece nu ao esplendor da vida que misericordiosamente o assassina – “mas a sua morte despe-o da sua aparência solar e esculpe-o em redentora agonia onde o rosto do Ausente se revela”. E sentimos na autora de “Mar Novo” a sede de justiça, que a leva a não fechar os olhos ao “espantoso sofrimento do mundo”.

Francisco Sousa Tavares disse, na melhor fórmula que conheço, que Sophia “tinha sinais do seu Deus na confusão dos homens”. E ainda Eduardo Lourenço diagnosticou “uma espécie de milagre, de raro e quase incrível privilégio” que deve “ter preservado cedo a jovem Sophia, católica e portuguesa, daquela obsessão culpabilizante que encharca por dentro a lírica nacional”. Daí que “como Eurídice” desça ao inferno do sofrimento “para o exorcizar”.  

“Depois de tantos séculos de pecado burguês, a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo não aprendeu a ceder aos desastres. Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa” (Arte Poética III, 1964). Todos quantos se cruzaram com Sophia, são unânimes em reconhecer que a capacidade criadora e a sensibilidade artística excecionais se aliaram sempre a uma inteligência política arguta. Os seus discursos políticos mostram-no. Os seus combates recusavam a ambiguidade. “No Centro Nacional de Cultura fiz de tudo” – confessa-nos. Então “discutia-se tudo: os sistemas políticos, os problemas sociais, os problemas religiosos, o Corbusier, a pintura moderna, o surrealismo, o Fernando Pessoa, a literatura portuguesa, a literatura brasileira, a literatura americana, a guerra de África. À discussão cada um trazia o que sabia e também o que era”. “Às vezes a polícia política (PIDE) aparecia: um dia fez uma busca à procura de uns papéis que não encontrou porque o Francisco os tinha escondido no frigorífico”.

E, afinal, nada era fácil, uma vez que não passava despercebido que “em certas sessões surgiam homens cinzentos e calados, com a gabardina abotoada até ao queixo e um ar simultaneamente taciturno e comprometido: ‘poker faced’”. Foi o tempo da Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos (e temos na retina, em Abril de 1974, à saída da Prisão de Caxias, a imagem da sua presença inesquecível), no tempo em que Nuno Teotónio Pereira desenhou em Caxias, na prisão, o sacrário da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Aquando do encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE), pela atribuição em 1965 do Prémio de novelística a Luandino Vieira, Sophia colocou o CNC, a que presidiu, ao serviço da causa da liberdade da cultura. Isto, além do apoio ao Manifesto dos 101, de 25 de Outubro de 1965, onde, sobre a questão colonial, um grupo de cristãos dizia sentir “imperiosamente a responsabilidade de afirmar que se a solução vier a ser um trágico extremismo radicalmente antiportuguês, ela terá sido a lógica consequência de um outro extremismo anterior, de ódio gerador de outros ódios”. Vemos, ouvimos e lemos – não podemos ignorar. Contra a ambiguidade, “sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem”.

E lembremo-nos do entusiasmo posto por Sophia na tradução de «Anunciação a Maria» de Paul Claudel. Sente-se a proximidade relativamente ao artista de «Arte Poética», numa fase da criação da autora de «Mar Novo», em que ouvimos, com a nitidez própria de uma palavra límpida, a compreensão da incerteza e da violência da injustiça. «Esta é a noite / Densa dos chacais / Pesada de amargura / Este é o tempo em que os homens renunciam». Longe da exclusiva busca de doçura, o que há, sim, é a permanente demanda de uma vida de drama, de dúvida e de contradição. Tomé e Pedro estão sempre presentes, antes e depois de pôr a mão na ferida aberta ou de ouvir o galo cantar, sempre perante o medo terrível que leva Mara ao ato de desespero perante Violaine. «Aquele que partiu / Precedendo os próprios passos como um jovem morto / Deixou-nos a esperança». É aqui que a poética de Sophia se aproxima e se afasta de Claudel. Aproxima-se porque há a procura silenciosa da esperança no equilíbrio da palavra e da justiça, nunca a confusão com qualquer certeza intolerante. Mas distancia-se, uma vez que não pode haver ambiguidade na luta agónica. Violaine é símbolo, a um tempo, da incerteza e da força, num gesto inusitado e necessário do beijo ostensivo ao leproso. Como escreverá Claudel no pórtico de «Le Soulier de Satin», em português: «Deus escreve direito por linhas tortas». “Queremos uma relação limpa e saudável entre a cultura e a política. Não queremos opressão cultural. Também não queremos dirigismo cultural. A política sempre que dirigir a cultura engana-se. Pois o dirigismo é uma forma de anti cultura e toda a anti cultura é reacionária”.  “Portugal logo que se forma é um país cheio de energia, com grande vontade de avançar e que o faz para o desconhecido. A maior parte dos portugueses não tem noção do prodígio que foram os Descobrimentos (…) Os portugueses eram um pouco como os gregos: onde iam faziam como na sua terra, às vezes melhor. Havia nisso uma grandeza e uma generosidade”.

A Nau Catrineta foi símbolo, para Almada, para Pessoa, para Sophia, para Ruben, para Agustina…
Por isso aqui está!


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