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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

“Urânio – Intriga Internacional no Alentejo” de Carlos Rayo

«Urânio – Intriga Internacional no Alentejo» de Carlos Rayo (Sopa de Letras, 2026) é um romance onde a ação e o direito se relacionam intimamente, criando um ambiente muito favorável a uma leitura interessada e descontraída capaz de fazer do livro um fator de entretenimento e de reflexão. 

O sucesso de Graham Greene como grande romancista deveu-se em parte à compreensão de que a literatura corresponde sempre a mais que um divertimento, ora se traduz na reflexão séria sobre o fator humano, ora se baseia nos acontecimentos quotidianos. A separação rígida entre os dois campos tende, porém, a atenuar-se à medida que a realidade se torna surpreendente. John R. Grisham Jr. (1955) é um dos romancistas que melhor 

tem compreendido esta complementaridade. Advogado de profissão, grande leitor do romance norte-americano, designadamente com John Steinbeck, procura analisar numa obra vasta a sociedade como realidade em conflito, que tende a emancipar-se pela procura da justiça e da verdade. Partindo da vida comum, a cada passo se descobre, que há mistérios e enigmas que perturbam a realidade. 

O meu amigo e colega de curso e de liceu Carlos Rayo, foi sempre um leitor insaciável e a literatura não só tem enriquecido o seu conhecimento da realidade humana, mas também tem permitido encontrar na lei e na justiça caminhos para uma sociedade melhor. E o comentário desportivo semanal permite-lhe exercitar o puro divertimento. O “entretenimento” de Greene é, assim, um modo para melhor se compreender a complexa dignidade humana, sendo que a realidade esconde sempre algo de essencial. Autor da “Alegre Sereia”, acaba de publicar “Urânio – Intriga Internacional no Alentejo” (Sopa de Letras, 2026). A matéria-prima é o interior de Portugal, mais concretamente o município de Nisa. 

Num cenário aparentemente plácido, tudo se inicia com a da identificação errada de alguém que não se compreende bem que papel desempenha, e que se faz passar por um ator teatral aparentemente desmemoriado. A protagonista é uma jovem advogada, Natércia Colete, conhecida como Naty, que procura um rumo para a vida e que é contactada por uma sociedade de advogados espanhola que lhe oferece uma oportunidade prometedora, depois de alguns sucessos locais em defesa dos queijos de Nisa. Nélio Barradas é o autarca provinciano em busca de notoriedade, com pouco cuidado em contactos suspeitos. O tema do Urânio já estivera na ordem do dia em Nisa, pela ação de grupos ambientalistas, e agora é motivo do interesse pela Metalmint, um conglomerado canadiano, que promete mundos e fundos para várias dezenas de milhões de toneladas de urânio em Nisa, que podem vir a afetar um quinto da terra arável do concelho. De súbito, surgem transações suspeitas, envolvendo prédios rústicos e mistos, prometidos a sociedades espanholas. Mas, para adensar o mistério e a suspeição, mais de metade das explorações vítimas de suspeitos incêndios são adquiridas por gente ligada ao negócio. Temos, assim, o quadro ideal para uma Intriga Internacional. A advogada apercebe-se, porém, de que as condições oferecidas envolvem um grave atentado ao poder local e ao meio ambiente. Por isso, Naty prepara e desenvolve a defesa. A luta adivinha-se dura. Os meios usados de parte a parte são ameaçadores. A Metalmint deseja extrair urânio à socapa e por isso apoia incendiários e especuladores imobiliários. Entra em ação a Associação Cívica – Justiceiros do Oculto – Nisa Sadia. A panóplia de instrumentos é vasta. Sun Tsu é citado: “Quando atacares cai que nem um relâmpago”. O enredo policial envolve atentados e mortes, suspense, dúvidas e riscos… Temos os ingredientes necessários para percebermos as virtudes de um bom divertimento literário. 

Guilherme d’Oliveira Martins 

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