«Modo de Ver» de Ricardo Cruz-Filipe (Fundação Gulbenkian) é um extraordinário repositório de obras que nos permite seguir o percurso de um artista inesperado e inovador que, utilizando técnicas e materiais entre a pintura e a fotografia, fazem da arte contemporânea um modo de entender a essência da arte.
O artista e o engenheiro foram duas referências naturalmente complementares. Conheci ambos e a nossa amizade e admiração baseou-se nesse encontro. Mais do que Álvaro de Campos, foi alguém que se afirmou como um criador sereno e incansável. O equilíbrio foi a sua marca. Se há autor que no seu percurso de artista pôde afirmar uma identidade própria de modo original, num panorama heterogéneo, foi Ricardo Cruz-Filipe. Dir-se-ia que o que podemos designar como Pop-Art foi ao encontro dos cânones clássicos, num misterioso jogo entre o que se esconde e o que se revela, como se cada imagem da sua linguagem própria se tornasse síntese de uma moderna expressão intemporal da arte e da cultura. Como afirmou Raquel Henriques da Silva, a pintura deambula entre universos diferentes, num maneirismo singular. Vivemos num mundo de sonhos. A partir de fragmentos de imagens reconstruídas em cenários italianos e flamengos dos séculos XVI e XVII, encontramos um tempo maravilhoso em suspenso. E estamos perante uma encenação teatral, onde coexistem vários momentos que constituem a perspetiva própria do autor. Por isso, Eduardo Lourenço falou de um “tempo imaginário”, em que a representação procura afirmar a criatividade para além dos limites do tempo e do espaço. Há sempre algo escondido e misterioso na obra de Cruz-Filipe, uma vez que as sombras anunciam novos espaços reveladores de sentidos para a existência humana.
Na última exposição realizada na Fundação Gulbenkian, intitulada “Modo de Ver”, Ana Vasconcelos lembrava a afirmação do cineasta Robert Bresson sobre o artista genuíno: “faz aparecer o que sem ti provavelmente nunca seria visto”. E ao chegarmos à fase derradeira da obra do pintor percebemos que há uma procura persistente sobre a essência das formas. A pintura e a fotografia associam-se de modo natural e necessário. Na última fase criativa do pintor, este deixou-se possuir pela exuberância da natureza e assim encontramos uma maturidade criativa que merece especial atenção. As antigas colagens em telas fotosensibilizadas e as formas inesperadas daí resultantes transformam-se em cenários surpreendentes como se a realidade se reconstruísse em formas cada vez mais intensas da expressão artística. Duas formas de ver relacionam-se intimamente num confronto que visa encontrar as melhores representações da expressão artística. Depois das composições procuradas, o autor foi descobrindo novas formas espontâneas que superam os exercícios desejados. Se no primeiro ciclo era o corpo humano que protagonizava a encenação, no segundo ciclo é a natureza que se torna expressão viva da representação – mar, céu, terra atmosfera, natureza líquida e sublimada. Ana Vasconcelos tem razão, ao procurar entender esse sentido profundo da obra do artista, pondo em paralelo a imagem e a representação, e ao invocar ainda o cinema de Bresson, visa-se “atingir esse ‘coração do coração’ que não se deixa captar nem pela poesia, nem pela filosofia, nem pela dramaturgia”. É a essência da imagem que conseguimos alcançar.
Guilherme d’Oliveira Martins