Tecer é como uma escrita livre, são pensamentos soltos que se entrelaçam. Viver uma
vida centrada no fazer das mãos de modo a acentuar a curiosidade e o envolvimento
com o mundo físico, este é o desejo da artista Sheila Hicks.
O conjunto de trabalhos mínimos apresentados no livro ‘Weaving as metaphor’ gravam a
vontade incessante de Hicks em fabricar, enlaçar, formar, explorar e experimentar. Hicks
ao tecer linhas, bocados de tecido, objectos, madeira, metal, pedra e papel revela uma
espontaneidade de escala íntima. Hicks usa este pequeno formato para fixar por onde
passa. São diários e funcionam como aproximações, comparações e imagens projetadas.
São representações tácteis, sensoriais, ricas em textura e cor que não podem esperar.
Hicks acredita que viver uma vida com propósito requer uma devoção ao fazer manual –
implica dedicar tempo a desenvolver habilidades que requerem e exigem movimentos
lentos e resultados demorados. Os trabalhos de ‘Weaving as metaphor’ são contidos,
complexos e variados. Tecem e cosem, ligam e juntam. O ato de tecer e coser é um
processo que implica paciência. É um caminho de rendição que pode libertar e unir
universos. Junta o céu à terra, o ser humano ao divino, pois é um ato de redenção e de
salvação:
“In all myth the art of weaving originated in the divine world and this is why some small
mistake must be woven into the pattern, to remind us of the imperfection in all created
life.” (Ronnberg 2010, 456)
A trama é princípio e fim. É a estrutura fundamental de toda a tecelagem, que é símbolo
do mistério de toda a existência. O processo de tecer transporta memórias, grava
evidências, fixa lugares, perpétua vidas. O fio atravessa o tempo e cruza o espaço. O
mundo visível e o mundo invisível tocam-se e misturam-se infinitamente.
O tecer de Hicks cria algo continuamente novo e inesperado. As substâncias, os
materiais, as formas são intencionais e resultam de vivências particulares – são sensíveis
ao momento e ao lugar onde são feitas. A variedade do gesto, do ponto, da trama e do
padrão criam uma linguagem composta por várias camadas delicadas, mas consistentes.
As composições tecidas ora fechadas e completas ora abertas e efémeras correspondem
e materializam períodos de tempo curtos e longos.
Hicks acredita que só fazendo com as mãos o pensamento se pode libertar e abrir-se ao
novo e ao improvável. Ao tecer o fio, nestas composições, Sheila Hicks permite a
existência, une mundos e possibilita a vida.
Ana Ruepp
Fotografia in https://hon034.hatenablog.com/entry/2022/08/05/193430
Boa tarde
Pode ser que lhe interesse. Sou amigo do autor, que é hoje requisitado em todo o mundo. Parte da obra dele tem a ver com os interessantes tópicos que levanta no seu artigo.
“Lines” (Routledge Classics)
por Tim Ingold (Autor)
Tim Ingold é professor emérito da Univ. de Aberdeen. Partindo da Antropologia, tem obra de interesse interdisciplinar e filosófico.
Cordiais cumprimentos
Vítor Oliveira Jorge
Muito obrigada pelo tão interessante comentário.
Vou com muita curiosidade investigar sobre o autor Tim Ingold e o livro que recomenda.
Desculpe so agora responder.
Cordiais saudações
Vítor Oliveira Jorge