De costas para o desastre, vive-se, sem que a degradação da humanidade incomode o suficiente para que se mude quase tudo; antes, treina-se a geração para viver um pouco mais como sonâmbula e um pouco menos como extinta.
Mas diga-se que a morada do sofrimento continua humana e por lá a verdade…
Mesmo assim, num estado de torpor, faz-se scroll e, esponjosa, a inocência vai desaparecendo.
Continua-se, então, a gerar o raciocínio aferido na indagação do quando, do porquê e do aonde — tudo assertivo, na opinião de muitos juízos, pois que abundantemente se funde na realidade com a qual desejam confirmar mais do mesmo.
Porque as cordas não são bambas, pensa-se, e as grandes questões são pequenas, e têm dito e assim julgado, em tempo útil.
Afinal, tudo se assemelha a uma realidade prefigurada de há muito, segundo os mesmos rituais dos casamentos felizes, das profissões bem-sucedidas e do dinheiro suficiente para tapar qualquer tipo de nudez; e, numa fantástica capacidade de mimese da bondade devidamente pré-formatada, julga-se calar a boca de quem deduz, e bem, que muito não passa de um guião.
Também se deita mão da IA que, com inúmeros mantras, escondidos e declarados, se atacou, pois há que proteger o que toca a cada um como muito relevante e poderoso para que se permaneça indispensável e acima no processo.
Curiosamente, nunca se afirma fazer parte integrante do planeta dos refugiados.
Foi criada uma simulação da nossa inteligência, e nós — que pertencemos a uma espécie muito jovem, como os dinossauros provam — lançamos mão de robôs que nem conseguem ver, mas realizam cirurgias com precisão.
Descura-se que a violação dos limites, essa mesma que ostenta a transgressão e a impunidade, funciona como definidora de autoridade, exibindo-se como prova do gozo narcísico e sádico do poder.
E os outros, os que ainda reconhecem que só o pensamento supera — não obstante a época de vírus estruturais, tais como pandemias, endemias e infodemias, que tanto aderem a quem há muito se separou da linguagem e se instalou na praça da cultura visual —, estão cientes de que mora ao nosso lado quem ordena que tudo se deve inverter o suficiente até que a liberdade se assuma serva.
Algo fundamental anda suspenso, certamente; mas os integralmente vivos ainda sabem que serão compreendidos na experiência do encontro, esse cujo arranco provém de onde o pulso só aparentemente é leve.
Teresa Bracinha Vieira
È pena que estas crõnicas,opiniões, assim como certos programas que ajudam a acordar as mentes, só em ambientes restritos, ou descobertos num artigo ao fundo dume página de jornal, venham a lume para nos lembrar que não estamos loucos ou isolados do mundo em que vivemos. Obrigado, pois é sempre um prazer lêr as suas intervenções, que só aqui no Raiz e Utopia posso usufruir.
Madeira da Silva