Que coisa!, o diferente modo de pensar de Deus sobre as criaturas todas tão parecidas! E repetia de si para si este pasmo.
Todos atiravam pedras ao Eduardo. Porque ele esfaqueara e porque ele é que começara a zanga com o vizinho, e porque ele devia era purificar-se da peçonha do mal que tinha dentro dele, que ele fosse excomungado agora que iria para a cadeia, que ele não devia ter culpas atenuadas porque era um desgraçado que só queria agradar aos mais poderosos que melhor um dia o poderiam defender e que ninguém pensava assim como ele; um lambe-botas dos diabos era o que ele era, pois que só ele era um cobarde e que vendera uma pipa por mais vinho do que tinha, e ninguém era tão pouco sério quanto ele e que tinha a mania que era esperto e porque ele era um sujo que só queria conspurcar os limpos, e que até as regas, as malhadas e as romarias tudo se alterava com a sua presença e até se falara que um dia fora leproso e que esmolara pelas redondezas e, sobretudo, que um dia se lhe ouvira a voz a cantar como se lhe agradasse a vida, sem consciência sequer de que já fizera filhos às mulheres e delas se apartara como ninguém é capaz de fazer, que já traíra amigos lá quando fora servente na vila, e quando ele largava água ao Deus dará e acabava deixando os milhos a estornicar ao sol? Um horror! Um dia até se gabou de saber ler, que a laringe se lhe roesse de tão grande mentira, queria fazer-se mais que nós era o que era, diziam todos, farejando forquilhas nas palavras como numa excitação raivosa de cães de caça.
As labaredas já rodeavam as casas depois de devorarem vinhas, pinhais e encostas. Todos pediam a ajuda de Deus, com os olhos quase cegos pelo fumo, abrindo-os num derradeiro esforço. Olhem que o Eduardo está ali na luta, cercado pelas chamas; pronto, fora o destino, parecia ele mesmo um tronco doido ardendo, mas foi a nossa salvação.
Alguém tocava os sinos a rebate e nada mais restava do que encomendar a alma do Eduardo a Deus, e que Ele a todos ajudasse, pois só a Sua sabedoria julgaria a todos diferentemente.
Que coisa!, o diferente modo de pensar de Deus sobre criaturas todas tão parecidas! E repetia de si para si este pasmo.
Teresa Bracinha Vieira