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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Mário de Sá-Carneiro, desenho de Almada Negreiros

De partida para Paris…

Folhetim de Verão – Capítulo XXIV

«Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espumas;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido… (…)

De tudo houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou, mas não voou… »

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) é uma das personalidades mais interessantes da geração de Orpheu. Nasceu em Lisboa, no dia 19 de maio de 1890. Filho de um engenheiro, ficou órfão de mãe com dois anos de idade. Foi entregue aos cuidados dos avós na Quinta da Vitória, na freguesia de Camarate, próximo de Lisboa. Em 1900, ingressa no Liceu de Lisboa (futuro Liceu Camões), numa altura em que começa a escrever as suas primeiras poesias. Em 1908 colabora com pequenos contos na revista “Azulejos”. Em 1910 escreve, em colaboração com Tomás Cabreira Júnior (que viria a suicidar-se na escadaria do liceu no ano seguinte), a peça “Amizade”. Impressionado com a morte do amigo algarvio, dedicou-lhe o poema “A Um Suicida”. Em 1911, Mário de Sá-Carneiro vai para Coimbra e matricula-se na Faculdade de Direito, no entanto interrompe os estudos. Em 1912 inicia a sua amizade com Fernando Pessoa. Com apoio financeiro do pai, vai para Paris. Nessa altura, publica um livro de contos intitulado “Princípio”. Em 1914, no começo da Primeira Grande Guerra, Mário de Sá-Carneiro voltou para Lisboa e colabora com Fernando Pessoa na feitura da revista “Orpheu” com o objetivo de divulgar novos ideais estéticos. Ainda em 1914, Sá-Carneiro publica duas obras: o livro de poemas, “Dispersão” e a novela “Confissões de Lúcio”. É um momento de especial entusiasmo em torno do modernismo. Em abril de 1915 foi lançado o primeiro número da revista “Orpheu”. No final de 1915, Mário de Sá-Carneiro publica o livro de contos “Céu em Fogo”. Em julho saiu o segundo número da revista. A vida de Mário de Sá-Carneiro muda radicalmente, após seu pai entrar em falência e cortar a mesada que o sustentava. Além da dificuldade financeira e da crise geral que todos passavam, Mário de Sá-Carneiro pensa em suicídio, e comenta com os amigos, inclusive com Fernando Pessoa. A sensibilidade e o espírito depressivo dominavam-lhe a criação poética como no poema “Dispersão”. E escreve:

«Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E Hoje, quando me sinto,
E com saudade de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
nem dei pela minha vida. (…)

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projeto:
Se me olho a um espelho, erro –
Não me acho no que projeto. (…)

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal…
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?… Ai de mim!… (…)

A relatividade das coisas aumenta a angústia do poeta, que se afasta cada vez mais das verdades absolutas. Quando surgem as controvérsias existenciais, por ele tão questionadas, a vida se lhe apresenta mais absurda ainda. Só lhe resta penetrar nos domínios da alma para extrair outras respostas. Quando mais indaga, maior é a deceção, pois, à medida que atravessa seu mundo interior, constata a solidão progressiva de sua personalidade isolada.
É pungente a carta de 13 de setembro de 1915: “Custa-me muito escrever-lhe esta carta dolorosa. Dolorosa para mim e para você. Mas por mim, já estou conformado. A dor é pois neste momento sobretudo pela grande tristeza que lhe vou causar. Em duas palavras, temos de desistir do nosso Orpheu”. Finalmente, Mário de Sá-Carneiro suicida-se no Hotel de Nice, em Paris, no dia 26 de abril de 1916, com apenas 26 anos.

(Continua)

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