Ao percorrermos as perspetivas sobre a cultura portuguesa, a partir do Romanceiro de Almeida Garrett, e depois de termos evocado Agustina Bessa-Luís e o seu génio, vamos até Ruben A., um dos mais inteligentes intérpretes da arte de ser português. Pode dizer-se que o escritor pôde em “A Torre da Barbela” realizar uma fantasmagoria onde o espírito português está representado de um modo abrangente, sem a tentação de julgar-nos como realidades abstratas, glória e perdição, mas como heterodoxia ou como “maravilhosa imperfeição”, que Eduardo Lourenço tão bem caracterizou. Ruben A. compreendeu o lirismo, a ironia, a tragédia, o picaresco, a ciclotimia entre o sucesso e a deceção. Entre os melhores e os piores do mundo… Somos quem somos. No momento mágico em que os fantasmas acordam e em que as personagens adormecem, tudo se transforma em sonho, valentia, medo, melancolia, loucura e desespero… Ruy Cinatti é o cavaleiro capaz dos maiores feitos e de grandes loucuras, entre amores e ideais. Percebemos que o sonho conduz a ir além da Taprobana. Que é a Nau Catrineta senão o símbolo da audácia e da provação?
Oiçamos Ruben A. a definir esse desassossego sempre inacabado, ele discípulo de um espírito irrequieto como o de Agostinho da Silva.
“O que é que eu queria ser na vida? Pião de nicas? Ser apara lápis? Espantalho da passarada? Amanuense de letras para desconto? Qual a minha missão na vida? Educar os outros? Instruir os alheios? Vestir os pobres? Despir os ricos? Rezar pela alma dos defuntos? Fazer promessas de bom comportamento? Todos com uma missão. Cumpra sua missão, tinha de acatar as regras de trânsito, um transito cívico de andar com os outros nas falas e nas ruas, pedestre e oral. Evitar o desgaste das solas, mais ainda de palavras que pudessem provocar azia nos estômagos empanturrados dos faladores cobertos pela censura. Como podia eu circular livremente num país que nunca aprendeu a dizer 𝑆𝑖𝑚! Vivia num jardim de cardos, atiravam à figura, não escondiam a brutalidade da estupidez. Espertos, uns, apenas entram na praça pública descobrem logo o jogo. Ser bem educado?! É conhecido que quem presta auxílio aos maus, sabe bem que tempos depois se arrepende. A estória da cobra enregelada, congelada, morta de carinhos – é levada para o aconchego do peito, aninhada e animada, aquecida, volta à vida, a primeira coisa que faz é cravar o dente para fazer sofrimento a quem lhe quis bem. O que era ser Homem? Outra vez a interrogação. Havia homens no meu País? Quem? Quem estava interessado nos problemas do semelhante? Quem? Um drama cobria a Pátria de alto a baixo, drama que eu pressentia, que não percebia, dor de dentes no longínquo sentir de um caramelo. Tinha de cumprir a minha missão, mas primeiro tinha de escolher essa missão. Se me interrogasse muito, acabaria no chilindró, gritava aos quatro ventos a força do absurdo, a malandrice dos cobardes, as associações de perversão para fins particulares. Quem era patriota? País de homens importantes, que não atendem ao telefone porque pode fazer mal aos ouvidas, país de homens dilatados que estão sempre a despacho e não têm horas para descanso; heróis de uma pátria que só compreendem nos jornais. (…) Queria ser profundamente português, até à raiz dos cabelos, queria compreender o fenómeno da emigração, ir viver fora uns anos. Sentia a necessidade de libertação, queria ver a medida, o padrão, saber aquilo que me diziam onde estava a verdade. Ver o que era válido na nossa terra, o que era válido na terra alheia. Impedia-me de emigrar a pincho, ao salto. Queria ver como a papelada demorava tempo, demorou um ano. Marquei passo um ano, mas emigrei pelas vias normais de pressão e temperatura. (𝑂 𝑀𝑢𝑛𝑑𝑜 𝑎̀ 𝑀𝑖𝑛ℎ𝑎 𝑃𝑟𝑜𝑐𝑢𝑟𝑎, volume III).
(Continua)
