Folhetim de Verão – Capítulo XXX
Nesta Nau Catrineta não poderíamos deixar de publicar o mais extraordinário texto do português moderno autêntico, da autoria de Alexandre O’Neill. Numa leitura pausada, descobrimos quem somos, usando a nossa própria língua. Se há um vozear em fundo quer em Alcântara quer na Rocha do Conde de Óbidos é este português que ouvimos e compreendemos, popular, chique e púdico, que Almada Negreiros pintou. É o melhor parlapié… Rafael Bordalo Pinheiro inventou uma companheira para o Zé Povinho. Não poderia deixar de ser Maria Paciência. E pondo em confronto os diversos textos que visitámos, descobrimos um Portugal muito diferente do que julgamos. Sem nos levarmos muito a sério, somos quem somos, nem melhores nem piores… Alguns “convencidos da vida”, incapazes de entender quem realmente somos, acham que podemos fazer um retrato à la minuta sem uma forte dose de ironia. Qual a nossa força? Não a tentação de confundir a sombra com a realidade. Fradique Mendes mistura-se com João da Ega ou com um qualquer Pacheco. Gonçalo Mendes Ramires da Ilustre Casa confunde-se com Portugal. Mas leia-se este retrato… de um País absolutamente ao nosso alcance.
«País por conhecer, por escrever, por ler…
*
País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.
*
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.
*
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.
*
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
– Não, não é para mim este país!
Mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.
*
País do cibinho mastigado
devagarinho.
*
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.
*
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.
*
Moroso país da surda cólera,
do repente que se quer feliz.
*
Já sabemos, país, que és um homenzinho…
*
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.
*
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: – Como vai a vida?
*
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.
E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!
*
Corre, boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.
*
País desconfiado a reolhar por cima
dum ombro que, com razão, duvida.
Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.
*
Nhurro país que nunca se desdiz.
*
Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.
*
Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.
*
Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parede comprida!
*
A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.
País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.
*
Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!
*
País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.
*
De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito…
*
Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.
Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!
*
Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!
*
Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.
Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar…
*
No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.
Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste pra mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!»
(Continua)
