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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Crónica da Cultura

Li primeiramente poesia

Sempre o amor

Sempre o amor me cobrou não sei o quê

Mostrei-lhe todos os meus papéis. Mas ele insistia, reclamava e achava-me culpada de uma espécie de
desastre mundial

Disse-lhe que me chamo Maria, que o tive como minha eternidade, que nunca fui a lugar algum sem ele
e que, antes do meu nascimento, eu já era assim, já tinha aquela ideia sentida no peito. E ele,

o amor, como no poema, não sabia o que fazer e amávamo-nos até ao impossível, até que nenhuma
página dele escrevesse mais do que uma travessia

E pelo mundo, nós, sem nos darmos conta de que fazemos parte infinitesimal de tudo isto

Não sabemos os nomes das flores, ou dos peixes, ou dos desejos, e parece que desejamos gozar a vida
sem nos inteirarmos de que o tempo nos vai condenando sem falar

E há muitas noites muito escuras que não compreendemos e,

ainda assim, amanhece

quando pensamos nas palavras da carta de há trinta anos,

que descrevia a sala elegante que conheceu a intimidade de outros tempos, quando uma gota era o
dilúvio de um beijo a que só ela assistira,

quando os prisioneiros daquela gota deixavam na sala o que foi e para que sede, enquanto a gota,
montanha abaixo, rolava, rolava e rolava, perdida numa ausência

E logo chegara o tempo de desfazer tudo em partes iguais e desiguais

e começar outra vez, como náufraga a dizer adeus, até logo e que eu te volte a ver algum dia,

minha querida ilha que duraste um instante, ó vida que te foste convertendo aos deuses que acabaram
por entrar na fila

a descansar do fogo e da água, do criador e da criação

Ao acordar, colhi brinquedos, despi bibes, usei chapéus de folha de sabugueiro e, ao meio-dia, a água e
o fogo, num outro pacto, escreveram versos e,

em algum momento, os enviaram para a mim.

E surjo a procurar explicar-me como cheguei aqui,

sendo um sopro ou apenas uma ínfima racha de vento,

por minha culpa, por minha enormíssima culpa, neste tranquilo e amante processo de desassossego.

Teresa Bracinha Vieira

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