Sempre o amor
Sempre o amor me cobrou não sei o quê
Mostrei-lhe todos os meus papéis. Mas ele insistia, reclamava e achava-me culpada de uma espécie de
desastre mundial
Disse-lhe que me chamo Maria, que o tive como minha eternidade, que nunca fui a lugar algum sem ele
e que, antes do meu nascimento, eu já era assim, já tinha aquela ideia sentida no peito. E ele,
o amor, como no poema, não sabia o que fazer e amávamo-nos até ao impossível, até que nenhuma
página dele escrevesse mais do que uma travessia
E pelo mundo, nós, sem nos darmos conta de que fazemos parte infinitesimal de tudo isto
Não sabemos os nomes das flores, ou dos peixes, ou dos desejos, e parece que desejamos gozar a vida
sem nos inteirarmos de que o tempo nos vai condenando sem falar
E há muitas noites muito escuras que não compreendemos e,
ainda assim, amanhece
quando pensamos nas palavras da carta de há trinta anos,
que descrevia a sala elegante que conheceu a intimidade de outros tempos, quando uma gota era o
dilúvio de um beijo a que só ela assistira,
quando os prisioneiros daquela gota deixavam na sala o que foi e para que sede, enquanto a gota,
montanha abaixo, rolava, rolava e rolava, perdida numa ausência
E logo chegara o tempo de desfazer tudo em partes iguais e desiguais
e começar outra vez, como náufraga a dizer adeus, até logo e que eu te volte a ver algum dia,
minha querida ilha que duraste um instante, ó vida que te foste convertendo aos deuses que acabaram
por entrar na fila
a descansar do fogo e da água, do criador e da criação
Ao acordar, colhi brinquedos, despi bibes, usei chapéus de folha de sabugueiro e, ao meio-dia, a água e
o fogo, num outro pacto, escreveram versos e,
em algum momento, os enviaram para a mim.
E surjo a procurar explicar-me como cheguei aqui,
sendo um sopro ou apenas uma ínfima racha de vento,
por minha culpa, por minha enormíssima culpa, neste tranquilo e amante processo de desassossego.
Teresa Bracinha Vieira