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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Biblioteca Pública Municipal do Porto © José Coelho/Agência LUSA

Bibliotecas pessoais e ecrãs viciantes 

1. Porque pessoais, tais bibliotecas pretendem ser o retrato mais credível e fidedigno do seu criador, nomeadamente sendo um leitor de livros comuns, e não de bibliófilos colecionadores de raridades.   

Em todas há um padrão, podendo ser universalizantes, multidisciplinares, de direita ou de esquerda, entre várias linhas divisórias, associadas a espólios onde pontuam figuras da literatura mundial, da política, das artes e cultura em geral. Podendo coexistir com alguma literatura militarista, religiosa, épica, feminina, neorrealista. 

Se vivemos numa época em que há uma desvalorização do livro, também é extensiva às bibliotecas pessoais, como prolongamento identitário de uma vida, nem que seja apenas pelos livros que lemos e nos mudaram.  

Há quem alegue que toleram mal a sua transmissão por óbito do seu criador, acabando na sua maioria destruídas, no lixo ou vendidas ao desbarato, havendo uma perda ou desvalorização real de livros que tiveram, têm e podem ter uma função. Por que não fazer a sua recolha e envio para pessoas ou países excluídos de livros e de bibliotecas?   

E se há o arrumar, baralhar, desarrumar, organizar de novo algo que já estava arrumado ou desarrumado, a tendência é arrumar os livros de acordo com a apetência e o interesse de os ler, dando-nos a possibilidade de uma compreensão recíproca e de nos interligarmos, emocional e psicologicamente, com a vida das pessoas que retratam. Por que não em estantes biblioterapeutas conducentes a uma catarse em que nos sentimos mais curados connosco e com os outros?   

2. Em contrapartida, há o uso excessivo ou inadequado dos ecrãs coloridos e viciantes, ricos em estímulos, num mundo crescentemente conectado e com perigos, desde o sedentarismo à saúde mental, apelativos para os utilizadores, juntamente com as redes sociais, que não conseguem largar.   

Dizem especialistas que os reais responsáveis por estes ecrãs extravagantes são os industriais do setor, como a GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft), grupos de videojogos on line e afins, com o apoio e cumplicidade de toda a cadeia que tira proveito da multiplicação exponencial dos usos digitais. 

Os excessos dos ecrãs são mais inadequados para adolescentes e crianças em tenra idade, que ainda desenvolvem e formam os seus cérebros, insistindo-se na ideia de regulamentação. Dando prazer com tão pouco esforço, é natural que sejamos atraídos, a começar nas crianças e jovens, negando-nos uma interação humana direta.  

Todos precisamos de um humano para sermos humanos, clamando-se por leis e regras para impedir abusos, usos desonestos e manipuladores, criando condições para que surjam alternativas.   

Se pensarmos bem, ainda devemos muito a quem compra livros e não dispensa a sua leitura em papel, o que proporciona uma alternativa ao ecrã, entre várias opções de escolha, tanto mais relevantes quanto se progride com leis restritivas e proibitivas, até uma certa idade, as quais, concorde-se ou não, não deixam de dar razão aos que defendem que os seres humanos nasceram, cresceram e desenvolveram-se bem antes dos ecrãs.  

Se o mau uso dos ecrãs, coloridos e viciantes, com algoritmos enganadores e manipuladores, tem impacto na saúde mental através de um défice crónico do sono, que favorece a ansiedade e depressão, por que não os regulamentar, nomeadamente para crianças e jovens, em paralelo com os malefícios do tabaco e do amianto?   

Onde, em alternativa, a leitura de livros comuns nos torna mais humanos, em especial durante uma determinada fase da vida (infância e adolescência), com o reaparecimento de bibliotecas pessoais que aproveitam a riqueza e a variedade da dupla oferta, tendo como lema a ideia de que o rebelde que faz tudo com o telemóvel está a virar as costas a tudo o que se fez (e ainda faz) sem internet.

Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 274

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