O Januário possuía um bom coração e uma generosa alma. Nunca fora um viúvo queixoso. Lá na terra até era falado o seu jeito para manter a casa arrumada e os deveres de ajuda aos vizinhos mantinham-se como sempre nos dias marcados. Um dia levava a junta de bois a lavrar a terra de outros por troca nas suas ceifas como sempre acontecera e por aí.
Era ainda novo, mas arredava-se cada vez mais das vistas.
Algo mudara mais profundamente de há uns tempos para cá. Umas lembranças, uns pensares que dele se não apartavam.
Assim, muitas das vezes interrompia o seu próprio trabalho para se sentar meio escondido, entre o mato, a olhar as serras, o céu, as gentes da aldeia que se moviam de um lado para o outro, e assim permanecia como não acordado para este mundo e assim conversava com ele próprio e com quem imaginava.
Se tinha tido sonhos em juventude? Se sabia que eram sonhos? Se os sentimentos o inquietaram muito e não se acautelou? De quantos sustos fugira e que fraquezas escondera? E dos ensejos a quem falara? A quem tinha querido mal por tão bem querer? O que remediara e como quase perdera a fé quando queriam que ele acreditasse que o pai agora estava junto a Deus.
E depois recomeçava de novo a escrever a carta:
«Querido pai,
Como vê, estou a chorar sem lágrimas. Como vê, estou naquela encosta do rego da água onde me ensinou a lavar os pés. Estive a conversar consigo e tínhamos até combinado que se eu um dia fosse à escola, aprenderia a escrever para lhe escrever cartas só para si. Aqui vai outra. Nunca fui à escola, mas sei que você sabe ler os meus pensamentos.
Querido pai,
Ainda hoje me custa despedir-me de si como sempre lhe custou despedir-se de mim quando eu levava rebanho afora três meses. Mas pai, isso fazia sentido. Peço-lhe agora que me diga, daí de onde está, o que devo fazer se por acaso me faltar a lembrança de lhe escrever, pois vamos que um dia eu já para aqui não venha e nem o rego da água sinta a minha falta ou eu a dele. Que fazer se isto acontecer? Muito fez o pai por mim, mas por favor, mande-me ir ter consigo, se eu a si lhe faltar na hora em que me quer.
A sua bênção
Januário»
Teresa Bracinha Vieira