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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Fernando Pessoa por Almada Negreiros

Linguagens do Silêncio

Fernando Pessoa dizia que escrever era a sua maneira de estar só. Há pessoas que sempre foram atraídas pelo silêncio. Adoram essa ideia. É um privilégio. E há-as que não conseguem estar sozinhas. Não conseguem ouvir-se a si mesmas. Não conseguem estar em silêncio. Pessoa, à semelhança de outros, e entre eles tantos escritores, tinha como imprescindível esse refúgio silencioso que há em nós para poder escrever. Era o seu reino, onde era dono e senhor. Uma solitude gratificante.  

Curiosamente, para o prémio Nobel da Literatura, V. S. Naipaul, agraciado em 2001, o “escrever, mais e mais”, evitava o silêncio, sentindo cada vez mais necessidade da escrita como forma de fugir ao silenciamento: “O que acontece, quando temos uma certa idade, é que estamos a ser empurrados para o silêncio, para o não fazer”, sublinhando ter a escrita como uma missão, para a qual foi destinado.

O escritor norueguês Jon Fosse, Nobel da Literatura (2023), invoca o silêncio para dizer o indizível, dando-lhe voz através da escrita: “Eu estou de pé totalmente silencioso. Quero um silêncio total, quero escutar o silêncio. Porque é no silêncio que Deus se faz ouvir. Em todo o caso, alguém disse algo parecido com isso, mas de qualquer modo eu não consigo ouvir a voz de Deus, a única coisa que consigo ouvir é o nada. Quando escuto o nada eu ouço, eu ouço, se é que é possível ouvir o nada, (…), sim, eu ouço o nada, não qualquer coisa, em todo o caso não a voz de Deus, o que quer que ela possa ser. Mas vou deixar ao critério dos outros, penso eu” (Uma Brancura Luminosa). Segundo este autor, o que não se consegue dizer deve ser escrito, pois em literatura é possível dizer um pouco mais. E como expressar os que recorrem ao silêncio dos templos para orar, meditar e pensar no infinito do indizível e invisível, em que a linguagem do silêncio permite compreender a essência da comunicação humana com o espiritual e o transcendente?

Em todas as situações, aparentemente contraditórias, aprende-se a ouvir os dizeres da nossa mente, vertidos na palavra escrita, quando ninguém mais falava, sendo a ausência de som, em rigor, um meio poderoso de comunicação, porque fala onde as palavras falham.  

Sendo a linguagem do silêncio universal, é compreendida por todos, mesmo que de maneiras diferentes, expressando sentimentos que o falar não alcança. É uma arte em que o pensamento desabrocha e floresce, pois é com ele que as palavras e a escrita ganham sentido, dado que as antecede e as sucede, antecipando-se-lhes e seguindo-se-lhes.     

Diz-se que é no silêncio que as verdades sussurram, podendo ser, consoante o contexto e as nossas circunstâncias, aceitação, acordo, amor, cumplicidade, contemplação,  observação, saber ouvir, pausa, protesto, recordação, memória, reflexão, repouso, respeito, refúgio, havendo que saber distinguir entre o que comunica e o que cala, porque nem sempre é o que se diz que importa, mas o que se cala e como se cala. Também pode ser uma estratégia de comunicação não-verbal, uma luta pela sobrevivência, como os cafés de bairro no seu combate silencioso à solidão dos idosos. 

Para Pascal, o impulso humano para a ação, a adrenalina e a emoção é uma fuga antropológica que apelida de “divertimento” (divertissement)”, tendo como origem da infelicidade humana a incapacidade de permanecer em repouso e o não aceitar o tempo do silêncio como uma oportunidade de conhecimento e de desenvolvimento ético.

Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 262 

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