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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Crónica da Cultura

Os Memoráveis, a Ópera Por Todos Nós: um iluminado encontro

É um facto que um sentido de responsabilidade democrática ainda não substituiu o da
responsabilização autoritária que, à toa, ainda existe por todo o lado, num processo de malícia
situada e lentamente abafadora de memórias, de futuros e de passados por honrar.

A minha querida Amiga Lídia Jorge tem boa razão quando neste seu romance Os Memoráveis:
Sem nada ter feito para isso, sem querer nem desejar, encontrava-me em face a um tempo
longínquo, recebia mensagens de um país distante de que havia prescindido a ponto de,
ultimamente, chegar a duvidar da existência real do seu presente, quanto mais do seu passado
.

E Lídia!

Contorce-se o tempo num país-lagarta, num país que muitos desejam que comece e acabe por
citações. Mas não será assim. Foi nas mãos da Lídia que entreguei o verde caderno para António
Gamoneda. Embainhei palavras que não podiam esperar e, de modo a que não perdessem
forças, levou-as Lídia ao destinatário, olhando em redor e procurando-o para lá do horizonte,
deitando mão do seu veio de luz. Mulher-tempo.

Quando voltámos a conversar, eu já tinha o livro da Lídia que acima cito. Já tinha o testamento
do poeta magrebino

Silêncio é morte
e tu, se te calas
morres, e nós também
e se falas
morres, e nós também
então diz e morre.
(e acrescentado à mão de um)
E nós também.

Lídia:

Temos, às vezes, tido músculos de bronze maleável, que muito têm sabido refulgir sob a luz
rasante do interpretar. Tanto falamos acerca… e sem dúvidas de identificar o que nos espera ou
aguardou, até a música que não ouvimos e a que em nós cresceu, e até o jogo que nos fez e faz
mergulhar os dedos nos cabelos, plantas enfeitiçadas pelos céus púrpuras de alegrias, choros,
raivas e espaços de amor que cada uma, em ângulos de caminhos diferentes, aceitou percorrer
pelas ilhas perdidas, no centro dos mundos que habitávamos e habitamos.

E do muito eis que também nada

Como um dia que havia começado com um filme de felicidade.

Nada como ser-se filho de uma revolução para se ficar acompanhado para sempre por uma
multidão entre a alegria e a fúria.

Nada como nem fome, nem sede, nem cansaço; um tanto o banho do valor requintado de alma
fresca que nos habita, quando também se liberta a voz.

Lídia, assim também é por aqui; o livro Os Memoráveis deve e pode ser lido. Nele, o acordar de
um torpor estranho que se entranhou nas gentes, a proposta de se reajustar o espírito aos
limites do tolerável e do intolerável, pois que a escuridão se adensa e o veleiro, curvado, já não
nos dá a proteção total da sua silhueta.

Os homens metediços e ressentidos que a Lídia refere neste livro são gentes que abalam cedo
deste mundo, deles adverte, que uma boa parte do solo arável se alimenta de ossos tenros, ora,

os do rapaz dos tanques, autor daquelas conversações prolongadas no Largo do Carmo, parecem
terem sido requerimento adiado sine die.

Parece-me Lídia, parece-me mesmo que o prau se fundeou lá onde regressados sem dano das
visitas às memórias, não viremos nunca.

A inquietude deste livro é notável. É exposta por uma mulher que espreita e espia o parto que
um dia viu e o confronta com a ideia do que outros querem fazer crer que dele se creia; e,
mirando-se esta mulher de dentro e de for a ao mesmo tempo, permite que a cerquem até que,
liberta pela fortíssima tensão, faça do tempo que se passou uma íris das manhãs, e que no tempo
de hoje escrevam sempre as suas mãos nestes confins torrenciais, como quem afirmará sem
receios: «Eu estou na História, não nos limbos», afirmará a Escritora. A vida compele-me num
correr nunca submetido.

E nesta conversa-chave propõe-nos a Lídia Jorge

(…) deixando-nos (…) vinte, trinta, quarenta, cem anos, ou o tempo que ainda venha a ser
necessário, para decifrarmos o que verdadeiramente se passou(…) é um tipo de ousadia que a
história está sempre a engendrar.

É uma difícil verdade-alívio, remédio para uma angústia à deriva, mas que nos revela também
quem somos no fim do périplo, se nos quisermos pôr à prova.

Assim te li, querida Amiga e sentida Escritora.


Teresa Bracinha Vieira
Reposição de texto publicado em março de 2014. Reconhecimento à excecional ópera POR TODOS NÓS

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