‘…the entire dynamics of the film centres on the moment this woman refuses to be this cliché, on the moment when she no longer wants to be looked at but wants instead to look at others and becomes the looking subject.’, Agnès Varda In Agnès Varda: Interviews (Conversations with Filmmakers Series)
No filme de Agnès Varda, ‘Cléo de 5 à 7’ (1962) a cidade permite o encontro, a descoberta e a possibilidade de recomeço. A cidade, deste filme, possibilita a revelação de Cléo, pois é feita de reflexos e de olhares. A cidade pode construir a imagem que se tem de si próprio. Embriagada pela sua própria beleza, Cléo pensa que esta será a sua única salvação.
O filme expressa a procura de uma mulher pela sua identidade. E a cidade apresenta-se como um espaço de libertação. Para poder caminhar livre e sozinha, Cléo tem de reaprender a caminhar no meio da multidão e a observar sem ser observada. Os reflexos constantes de Cléo trazem a solidão e a constante necessidade de ser o que os outros querem que ela seja. A maneira como Cléo se observa nesses reflexos influencia a sua maneira de olhar para a vida.
‘That unchanging doll’s face, with that ridiculous hat. I can’t see my own fears I think others look at me, I look at no one but myself. It wears me out.’, Cléo In ‘Cléo de 5 à 7’
Os reflexos vão-se fragmentando ao longo do filme e partem a sua imagem em mil bocados. Tudo ganha uma outra profundidade. A simples observação dos outros de início pode ser avassaladora. Mas a cidade que Agnès apresenta permite o momento inesperado da transformação. Cléo até então construíra cuidadosamente uma imagem que seguia o olhar alheio. Durante este tempo de espera, das 5 às 7, Cléo compreende que a sua imagem de outrora se estilhaça. E, para seu espanto, a falta de sentido deixa-a assim livre.
O contato e o encontro constante com os outros, na cidade, permite que Cléo deixe de estar ao alcance da vista. Agora pode ser ela a observar. Os movimentos dos outros, apesar de incertos podem preencher o abismo de Cléo.
A cidade cheia de gente a andar para um destino que se desconhece, faz Cléo pensar na sua própria direção. Cléo não sabe para onde ir. Ao derivar sem planear caminho, Cléo demora-se com quem quer estar. As histórias dos outros que se atravessam fazem-na esquecer a ameaça da morte. O tempo e o espaço então coincidem – o tempo escapa a Cléo, mas o espaço permite que o seu olhar se torne
mais claro.
‘It’s strange, I have questions for everything. Today everything amazes me. People’s faces next to mine.’, Cléo In ‘Cléo de 5 à 7’
O sujeito, neste filme é Cléo, e esta passa a observar o recomeço do mundo ao seu redor e isso só é possível poque o tempo se transformou numa eternidade e o espaço da cidade estremecida, mostra a cada passo uma pessoa nova.
Ana Ruepp