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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Onde e quando é a vida eterna?

Lembro-me perfeitamente. Eu estava em Tubinga, Alemanha, quando, pela manhã, fui surpreendido por este título na primeira página do jornal: “O Presidente visita o Filósofo”.

François Mitterand fora falar com o filósofo Jean Guitton a sua casa, para perguntar-lhe o que é a morte. “Qual é a última barreira?” “Senhor Presidente, é muito simples. A última barreira é a morte”. “Mas… e depois da morte?” “Depois da morte é o que se chama o Além”. “Mas o que é o Além?” Aí, o conhecido filósofo católico, discípulo de Bergson, amigo de Paulo VI, observador no Concílio Vaticano II, respondeu que não sabia; precisamente “porque é o Além”.

Outro grande filósofo do século XX, Ernst Bloch, o filósofo ateu da esperança, deixou escrito que “o cristianismo, na concorrência com outros profetas da imortalidade e da sobrevivência, venceu em grande parte graças à proclamação de Cristo: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’. No século primeiro depois do acontecimento do Gólgota, a ressurreição foi referida ao Gólgota de uma forma inteiramente pessoal, de tal modo que pelo baptismo na morte de Cristo se experiencia a ressurreição com ele.  Imperava então um desespero apaixonado, que hoje nos parece incompreensível.” De facto, hoje, face ao Além e à vida eterna, o que parece estar em vigência é a indiferença. Mas Bloch prevenia: “nada impede que dentro de 50 ou 100 anos volte essa neurose ou psicose de angústia da morte, de tipo metafísico, com a pergunta radical: para quê o esforço da nossa existência, se morremos completamente, vamos para a cova e, em última instância, não nos resta nada?”

Outro filósofo marxista, B. Bosnjak, contemporâneo de Bloch, também escreveu: “Determinadas formas de religião podem deixar de existir. Mas, como antítese da morte, quer dizer, como aspiração de eternidade, a religião pode sempre tornar a renascer. De facto, encontramo-nos perante o maior dos mistérios: não sabemos porque é que existe alguma coisa em vez do nada”.

Já São Paulo tinha proclamado que, se Cristo não ressuscitou, é vã a fé dos cristãos.

Mas, há relativamente poucos anos, precisamente em tempos de Páscoa – celebração da morte e da ressurreição de Jesus – andaram os média alarmados por causa de um filme de James Cameron, The Lost Tomb of Jesus, com um documentário sobre uma descoberta arqueológica de 1980 em Jerusalém: dez ossários, seis dos quais com nomes decisivos do Novo Testamento e supostamente ligados à família de Jesus: Jesus, filho de José; Maria; José; Mariamme (Maria Madalena?); Judas, filho de Jesus; Mateus.  Encontrado o corpo de Jesus, afundar-se-ia o edifício da Igreja cristã, assente precisamente na ressurreição!

A maior parte dos arqueólogos e investigadores  veio dizer que a afirmação de que se tinha encontrado o túmulo da família de Jesus era um disparate ridículo. No entanto, as pessoas gostam do esotérico e do escândalo. 

Vamos, porém, supor que um dia se demonstrava que se tinha encontrado os restos mortais de Jesus. Então?

Lembro-me de, ainda jovem estudante, ter dito a um professor jesuíta, holandês, da Universidade Gregoriana de Roma, que, se viessem a  encontrar os restos do cadáver de Jesus, a fé cristã continuaria inabalável. Ele ficou surpreendido com a minha ousadia, mas remeteu-me para o famoso Lexikon für Theologie und Kirche onde se defendia essa posição.

É evidente que a ressurreição nada tem a ver com a reanimação do cadáver, pois, se fosse isso, a pessoa voltaria a morrer. A ressurreição é a afirmação de fé, com razões, de que Jesus, na morte, não soçobrou no nada, mas foi encontrado pela plenitude do mistério inominável de Deus.

O que é e como é esse encontro ninguém sabe – a ultimidade transcende a razão científica, empírico-matemática. Mas aqueles que acreditam em Deus, o Vivente, que é Amor, Criador de todas as coisas, Fundamento e Sentido último de tudo quanto existe, fazem suas aquelas palavras que, noutro contexto, Espinosa deixou: “sabemos e experienciamos que somos eternos”.

Ainda neste contexto, permito-me citar, mais uma vez, Herbert Haag, o grande amigo e talvez o maior exegeta do século XX. Para um dos últimos encontros, levei uma pergunta que alguém me pediu para lhe fazer: se acreditava na vida para lá da morte. E ele, textualmente: “Diga-lhe que sim. Eu creio na vida para lá da morte. Como é ninguém sabe.”

A vida eterna é só depois da morte?  Quem não viveu na superfície das coisas, quem  perguntou até à raiz de tudo, quem se exaltou indizivelmente com o fulgor da beleza, quem criou uma obra, um filho, quem alguma vez teve um gesto absolutamente gratuito de amor, quem se deixou surpreender pelo abismo in-finito do olhar de alguém, quem teve a graça de banquetes felizes com familiares e amigos, aqueles amigos que levamos no coração, quem fruiu exaltadamente de concertos musicais inolvidáveis pois continuam a morar connosco, quem tentou descer até ao fundo sem fundo de si, quem foi abalado pela exigência incondicionada do dever a ponto de preferir ser morto a matar um inocente, quem se deixou amorosamente tocar por um tu que não se possui nem domina, quem foi alguma vez avassaladoramente visitado pela pergunta inconstruível: “porque há algo e não nada?”, quem se deixou confrontar com a vida de Jesus e o seu Evangelho por palavras e obras, sem se acobardar sabendo que acabaria por ser julgado e condenado à morte, e morte de cruz, por aqueles a quem a sua Mensagem não interessava, pelo contrário — representantes do Templo e do Império —, foi, é, tangido pela fímbria da eternidade…   

Então, onde e quando é a vida eterna? Aqui e agora, no Aberto.  Sem esquecer os horrores do mundo.

Anselmo Borges

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