Mentimos sempre para sobreviver, para obter guerras e amnistias, esperanças ao rés da alma onde
cavamos e escavamos em busca de um rosto, de uma palavra, de uma água
Sem atenuantes nem remédio, estamos vivos,
representamos papéis e criamos ficções para dizer verdades que, afinal, se dizem por si
Não questionamos se possuímos nós alguma coisa se nem sequer sabemos o que somos, e, no entanto, julgamos triunfar quando nos levantamos às seis em ponto
e fazemos o caminho dos demais com outros jeitos
e cem vezes ou nenhuma lemos as mesmas páginas,
juntámos dinheiro e ressuscitámos a cada três dias com a impossível chave na mão, aquela mesma que
não trava os instantes que nos olham a viver
a nossa finitude
e o que em nós é agora ou amanhã em parte alguma
Nada digas, não fales;
existem, sim, fotos ilesas no arquivo que não querem acordar nunca
Não as dominam os idiomas das noites brancas e resistem a escrutinar signos, realidades, memórias,
desejos, espelhos e coisas muito estranhas que saem do nada e voltam ao nada como um jogo
Escuta-me, escuta-me até onde as palavras já não podem progredir;
não te entristeças mais por saberes que a solidão
conhece bem os sentires dos sem-porquê
e as razões de se dizer que ela, descalça, sem entrar nem sair,
está
Teresa Bracinha Vieira