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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Claude Monet

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Crónica da Cultura

Para além das palavras

Mentimos sempre para sobreviver, para obter guerras e amnistias, esperanças ao rés da alma onde
cavamos e escavamos em busca de um rosto, de uma palavra, de uma água

Sem atenuantes nem remédio, estamos vivos,

representamos papéis e criamos ficções para dizer verdades que, afinal, se dizem por si

Não questionamos se possuímos nós alguma coisa se nem sequer sabemos o que somos, e, no entanto, julgamos triunfar quando nos levantamos às seis em ponto

e fazemos o caminho dos demais com outros jeitos

e cem vezes ou nenhuma lemos as mesmas páginas,

juntámos dinheiro e ressuscitámos a cada três dias com a impossível chave na mão, aquela mesma que
não trava os instantes que nos olham a viver

a nossa finitude

e o que em nós é agora ou amanhã em parte alguma

Nada digas, não fales;

existem, sim, fotos ilesas no arquivo que não querem acordar nunca

Não as dominam os idiomas das noites brancas e resistem a escrutinar signos, realidades, memórias,
desejos, espelhos e coisas muito estranhas que saem do nada e voltam ao nada como um jogo

Escuta-me, escuta-me até onde as palavras já não podem progredir;

não te entristeças mais por saberes que a solidão

conhece bem os sentires dos sem-porquê

e as razões de se dizer que ela, descalça, sem entrar nem sair,

está

Teresa Bracinha Vieira

4 comentários sobre “Para além das palavras

  1. Obrigada Sra Dra Teresa Bracinha Vieira!
    A solidão pode ser uma dádiva, mesmo de pés descalços, se não for constante.

    1. Doutora Aldina
      A solidão é muitas vezes acerada e muda. Em algum momento até a contradição a explica e dela se carece.
      Bem-haja

  2. Não iremos perscrutar nenhuma solidão por imposição cósmica.
    Nem a passagem a impede, se for solidão, se não for não a impede.
    Talvez o barqueiro seja Serafim.
    “Carpe diem quam minimum credula postero”!?
    PS

  3. De certo, que o mencionado Serafim não tinha parido filhos/filhas e estas não tinham parido netos/netas, que Ele amasse profundamente.

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