O poder do pensamento humano e da nossa imaginação não é feito de armas, mas sim de capacidade argumentativa, criativa e inventiva.
Os seus portadores são poderosos de pensamento e espírito.
E se o pensamento e o espírito, na sua essência, são livres e ampliam a nossa mundividência, é porque são dotados por uma natureza intrinsecamente pluricultural, sendo imprescindíveis na construção de uma sociedade mais justa e plural.
São o inverso da tendência humana de ameaçar, agredir ou rejeitar os que pensam diferente.
Contrariam a criação de “bolhas” ambientes, isoladas e tribais, de pessoas da família certa, do grupo certo ou da tribo certa, que convivem apenas com consensos e opiniões similares.
São a génese do pensar diferente.
Do pensar diferente de nós como ferramenta fundamental da coabitação democrática, através de um diálogo crítico e construtivo, com respeito pelas divergências.
Experiência estimulante, desafiadora, enriquecedora, gratificante e tolerante do convívio entre humanos que pensam de modo diferente, dando-nos a oportunidade de ampliar o nosso olhar e fortalecer o nosso desenvolvimento e maturidade.
Se o pensar diferente é amigo da democracia, é uma ameaça e um inimigo quando lida com sociedades totalitárias.
Não pensar diferente corrobora preconceitos, desfavorece e dilui um debate saudável, inquina e expurga o exercício do contraditório, transforma em conflito divergências de opinião, levando à intolerância, debilitação das instituições e normalização de discursos autoritários, ditatoriais e totalitários.
Mas se o pensar diferente e a crítica são essenciais e fazem parte da democracia, podem também ser dissolutores, podendo os regimes democráticos dissolver-se a partir de dentro, como na Alemanha dos anos 30 do século XX, pelo que, como em qualquer diálogo, são precisos referentes comuns de sentido crítico construtivo e responsável.
Só o pensar diferente e a liberdade de dizer pode salvar a democracia, dado ser a sua essência e maior mais valia, que a diferencia e singulariza do regime político propriamente dito, associado ao clientelismo, corrupção e más práticas governamentais, que sempre existiram e existirão, mas que as pessoas têm o poder de denunciar livremente onde há um regime democrático.
Pensar diferente deve ser tido e visto como uma possibilidade de aprendizagem, não uma ameaça.
Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 269