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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Cadavre Exquis (1948), Grupo Surrealista de Lisboa - CAM Gulbenkian

Pensar diferente

O poder do pensamento humano e da nossa imaginação não é feito de armas, mas sim de capacidade argumentativa, criativa e inventiva. 

Os seus portadores são poderosos de pensamento e espírito. 

E se o pensamento e o espírito, na sua essência, são livres e ampliam a nossa mundividência, é porque são dotados por uma natureza intrinsecamente pluricultural, sendo imprescindíveis na construção de uma sociedade mais justa e plural.    

São o inverso da tendência humana de ameaçar, agredir ou rejeitar os que pensam diferente.   

Contrariam a criação de “bolhas” ambientes, isoladas e tribais, de pessoas da família certa, do grupo certo ou da tribo certa, que convivem apenas com consensos e opiniões similares.

São a génese do pensar diferente. 

Do pensar diferente de nós como ferramenta fundamental da coabitação democrática, através de um diálogo crítico e construtivo, com respeito pelas divergências. 

Experiência estimulante, desafiadora, enriquecedora, gratificante e tolerante do convívio entre humanos que pensam de modo diferente, dando-nos a oportunidade de ampliar o nosso olhar e fortalecer o nosso desenvolvimento e maturidade.  

Se o pensar diferente é amigo da democracia, é uma ameaça e um inimigo quando lida com sociedades totalitárias.  

Não pensar diferente corrobora preconceitos, desfavorece e dilui um debate saudável, inquina e expurga o exercício do contraditório, transforma em conflito divergências de opinião, levando à intolerância, debilitação das instituições e normalização de discursos autoritários, ditatoriais e totalitários.

Mas se o pensar diferente e a crítica são essenciais e fazem parte da democracia, podem também ser dissolutores, podendo os regimes democráticos dissolver-se a partir de dentro, como na Alemanha dos anos 30 do século XX, pelo que, como em qualquer diálogo, são precisos referentes comuns de sentido crítico construtivo e responsável.  

Só o pensar diferente e a liberdade de dizer pode salvar a democracia, dado ser a sua essência e maior mais valia, que a diferencia e singulariza do regime político propriamente dito, associado ao clientelismo, corrupção e más práticas governamentais, que sempre existiram e existirão, mas que as pessoas têm o poder de denunciar livremente onde há um regime  democrático.      

Pensar diferente deve ser tido e visto como uma possibilidade de aprendizagem, não uma ameaça.

Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 269

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