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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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David Hockney © DPA/EPA, Norbert Foersterling/Lusa

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Artigos de Opinião

Na ribalta das artes

David Hockney, há pouco falecido, tem na coleção do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian um notável exemplo da capacidade fulgurante do artista no âmbito da criação contemporânea. Refiro-me à pintura “Renaissance Head” de 1963, reconhecida pelo artista como marcante na evolução do seu percurso multifaetado. Pelo tema, pelo tratamento, pelas características únicas, encontramos uma síntese perfeita entre a jovialidade dos temas que o tornaram conhecido e a serena compreensão  de que a criação artística tem memória e que apenas é entendida num contínuo entre as raízes e a vida quotidiana.  Como ficou demonstrado no estudo subjacente à mostra “Arte Britânica”, a aquisição da obra correspondeu a um momento importante da afirmação internacional da Fundação Gulbenkian em cooperação com o British Council, visando, pelo apoio à criação artística, um progresso partilhado, de que os artistas portugueses foram largamente beneficiados em contacto com os melhores artistas e escolas britânicos. Paula Rego, Bartolomeu Cid dos Santos, Menez, João Penalva, Eduardo Batarda, Graça Pereira Coutinho, Fernando Calhau e Rui Sanches são referências fundamentais que demonstram o efeito de uma orientação estratégica virada para um futuro de abertura de horizontes, de partilha criadora e de diálogo intercultural.

José-Augusto França na sua “História da Arte em Portugal no século XX”, agora reeditada pela Imprensa Nacional, fala-nos da influência crucial desempenhada pela Gulbenkian na evolução da cultura portuguesa em geral. E o exemplo da experiência da Arte Britânica é demonstrativo disso mesmo. De facto, uma parte significativa da coleção de arte britânica do CAM foi constituída num momento-chave para o Reino Unido. É o período da recuperação económica no imediato pós-guerra, em que o inconformismo artístico se fez sentir. É a década da efervescência  cultural e artística dos “Swinging Sixties” num vai-e-vem em que David Hockney e Mark Lancaster partiram para os Estados Unidos em busca de mais liberdade, e em que os artistas portugueses e outros vieram para Londres num movimento de abertura de múltiplos sentidos, em diálogo com os criadores vindos da Commonwealth, o que favoreceu a perspetiva de emancipação de novos países e culturas. Ana Vasconcelos e Sarah MacDougall salientaram-no exemplarmente em “Arte Britânica – Ponto de Fuga” (Tinta da China, 2025). Londres tornou-se um centro artístico de grande vitalidade. E é digna de destaque a complementaridade entre as ações do British Council e o apoio dado pela Fundação, alargando horizontes, com subsídios a instituições britânicas, aquisições e prémios a artistas – o que enriqueceria a coleção do CAM, dando-lhe um lugar especial da contemporaneidade, com o surgimento de artistas novos com projeção internacional. O caso de Paula Rego é bem ilustrativo, merecendo destaque o testemunho emocionante de Nick Willing sobre a amizade entre Paula e Menez, que assume um significado especial no período em causa. Dir-se-ia que, graças a esta experiência, o envolvimento dos artistas portugueses projetou-os para a ribalta britânica e universal, ao lado dos mais representativos. E, hoje, quando relembramos a extraordinária personagem e a obra de David Hockney e a galáxia em que se integrou, compreendemos por que razão quis juntar na sua última grande mostra antológica uma obra marcante da coleção Gulbenkian.    

GOM  

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