1. A velocidade transformadora da tecnologia acelerou a impessoalidade.
Para David Byrne, as relações interpessoais foram asfixiadas e abolidas pelo progresso tecnológico, em nome da eficiência e produtividade. Lojas sem empregados, encomendas na Amazon, o streaming da Netflix e da Spotify, aplicações como a Uber, a Alexa e a Siri, suprimiram as interações com assistentes, lojistas, tarefeiros, carteiros, bancários, empregados de balcão, de caixa de supermercados e hipermercados.
Numa desatualização crescente e contínua, dado que até as batatas, as cebolas, os legumes, o pão, a fruta, os iogurtes, a manteiga, o queijo, artigos de higiene, os medicamentos, nos podem chegar a casa.
O que se pode alargar à companhia do ChatGPT, a um sem número de aplicações, tipo Teams e Zoom, aos robôs, chatbots, à telemedicina, a que se juntarão, no futuro, carros, táxis aéreos e aeroespaciais que nos transportam, sem motorista, a locais de compra, lazer e viagem onde não precisamos de cartão multibanco ou de crédito, tudo acompanhado pelos recentes e atuais desenvolvimentos da inteligência artificial.
Substitui-se a presencialidade, a presença física e pessoal, as conversas no momento e de circunstância, do mesmo modo que se começou a substituir o dinheiro em metal e os empregados, proporcionando-se comodidade, menos custos e rentabilidade, a começar pelas empresas, com repercussões no mercado laboral, desde logo rumo a uma nova visão do que é e será o trabalho.
2. O que não significa que a tecnologia nunca seja amiga da humanidade. Se pode ser neutra, gananciosa e monopolista, também pode ser funcional e útil, indispensável no imediato, por exemplo, fotografando e enviando documentos imprescindíveis, captando e filmando um carro em fuga causador de um acidente, entre mil e uma funcionalidades.
Só que quando apenas se interage com o outro para mostrar algo no ecrã, em que o meio é só a mensagem e um mundo mediatizado através da informação do telemóvel ou do computador, caminhamos e limitamo-nos às relações desumanizadas pela tecnologia, onde esta não é amiga da humanidade.
Há, então, uma intoxicação tecnológica que ameaça e mata a nossa fisiologia humana, o nosso humanismo, o antropocentrismo, passando a ser dependentes e súbditos extremos dos telemóveis, dos algoritmos da google e da inteligência artificial existindo, cada vez mais, centros de desintoxicação digital.
O incentivo para interagir é nulo.
Isolados e sós, afastamo-nos da vida em comunidade, deprimimo-nos, entramos numa bolha de internet, onde há sempre o risco de totalitarismos, de a verdade ficar presa ao que o algoritmo dita e ordena.
E um dia virá em que ficaremos a conhecer os danos da tecnologia digital para o nosso cérebro.
Ou será que um dia nos conseguiremos assegurar de que a tecnologia é mais amiga da humanidade do que o inverso?
Que haja a esperança de uma solução que cure ou neutralize os malefícios de uma epidemia da solidão e desumanização tecnológica.
Joaquim M. M. Patrício
Crónica Pluricultural n.º 267