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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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O SENTIDO DA VIDA. (3) SOFRIMENTO E SENTIDO

 

Há uma vivência radical que põe o pensamento em sobressalto. Cada um de nós sabe que não esteve sempre no mundo, isto é, que nem sempre existiu e que não existirá sempre. Houve um tempo em que ainda não existíamos, ainda não vivíamos, e haverá um tempo em que já não existiremos, já não viveremos cá, deixaremos de viver neste mundo. Nesta constatação, experienciamos que somos de nós, somos donos de nós — essa é a experiência da liberdade —, mas não nos pertencemos totalmente, não somos a nossa origem nem temos poder pleno sobre o nosso fim. Viemos ao mundo sem nós — ninguém nos perguntou se queríamos vir — e um dia a morte chega e leva-nos pura e simplesmente. Não nos colocámos a nós próprios na existência nem dispomos totalmente do nosso futuro, não somos o nosso fundamento. Aqui, perante a certeza de que nem sempre estive cá e de que não estarei cá para sempre, pois morrerei, ergue-se, enorme, irrecusável, a pergunta: donde vim?, para onde vou?, qual é o sentido da minha existência?, que valor tem a minha vida?

Esta pergunta formula-se em relação a todos os seres humanos, à vida em geral, a toda a realidade.: Porque é que há algo e não nada?, perguntaram Leibniz e Heidegger, entre outros, mas ela diz respeito concretamente a cada um, a cada uma, de modo existencial e tem carácter ao mesmo tempo teórico e prático, uma vez que implica a liberdade. Ela é a pergunta mais originária e fundamental, como bem viu Albert Camus: “Se a vida tem ou não tem sentido, essa é a questão metafísica”. De facto, o ser humano não pode viver sem sentido. Aliás, a existência humana está baseada na convicção do sentido. Há um pré-saber do sentido, de tal modo que a sua própria negação ainda o afirma. No limite, não é possível o “suicídio lógico”, pois quem pegasse numa arma para suicidar-se, porque tudo é absurdo, estava a negar o absurdo e a afirmar o sentido: pelo menos esse gesto tinha sentido…

Assim, quando se fala em sentido da vida, é preciso referir o “ter sentido” — há inteligibilidade e valor no ser —, e o “dar sentido”: comprometer a liberdade na tarefa de realização da existência própria. Dar sentido pressupõe encontrá-lo antes. E fundamentalmente sente a vida como tendo sentido quem vê a sua existência reconhecida.

A nossa vida não tem sentido, quando não vale para ninguém. No entanto, suportamos e superamos sofrimentos e fracassos, se alguém nos reconhece; erguemo-nos outra vez, apesar de tudo, se a nossa vida continua a ter valor para alguém, se alguém nos ama. Então, reciprocamente, a vida tem sentido, quando saímos de nós e nos dedicamos a alguém ou a uma causa. Quem não ama nem é amado sente a vida vazia de sentido, isto é, sem valor, como não valendo a pena. E como pode encontrar sentido quem não tem uma causa que o transcende e pela qual se bate?

O famoso psiquiatra e psicoterapeuta, Viktor Frankl, fundador da logoterapia, mostrou — ele sabia-o por experiência, pois esteve prisioneiro nos campos de concentração nazis — que a experiência mais radical do ser humano é o sentido, razões para viver. Ao contrário do que afirmaram Freud e Adler, no mais fundo de nós não se encontra a exigência de prazer e de poder, respectivamente, mas a vontade de sentido. Claro que o prazer é importante na vida, mas o prazer não garante a felicidade, um dos maiores enganos e ilusões consiste mesmo em confundir a felicidade com a soma de prazeres; concretamente, o prazer erótico, sem amor, sem encontro pessoal de liberdades em corpo, vai definhando e morrendo em frustração pornográfica. O poder pelo poder passeia-se pela vaidade oca de estrelas cadentes e na dominação político-económica arrogante e totalitária, e, depois… o que resta senão a ilusão de grandezas que murcham e se apagam? Ah!, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade!”, constata o Eclesiastes.

O paradoxo é este: a felicidade não pode ser buscada por si mesma, pois surge como consequência da realização dos valores e do sentido: é esquecendo-se de si e entregando-se a alguém, no serviço de grandes causas, que os seres humanos verdadeiramente se encontram a si mesmos. Investigadores sociais e psiquiatras não têm dúvida de que o vazio e a frustração existencial são uma das causas maiores dos desequilíbrios psicológicos do Homem contemporâneo. E mostram que a carência de sentido está frequentemente na base da dependência da droga, do alcoolismo, da criminalidade, do suicídio.

E a prova do sofrimento? Em primeiro lugar, até porque muitas vezes a religião sacralizou o sofrimento, como se Deus precisasse do sacrifício dos seres humanos para aplacar a sua ira, é preciso dizer que o sofrimento pelo sofrimento não só não vale nada como deve ser evitado como um mal. Mas é preciso acrescentar com igual veemência, concretamente neste tempo de hedonismo selvagem, que nada de grande, bom e valioso se consegue sem sacrifício. Quem, por exemplo, não está disposto a sofrer pela pessoa amada não ama verdadeiramente. É necessário aprender a alegria de superar obstáculos para atingir objectivos valiosos: já os Gregos associaram sofrer e aprender. Viktor Frankl verificou, concretametnte nos campos de concentração, que sobreviviam aqueles que ainda tinham um sentido para a sua existência: reencontrar a família, realizar uma obra, bater-se por uma causa, lutar por um ideal, proclamar ao mundo: “Nunca mais este horror!” “Dos que pudemos sobreviver só sobriveram os que encontraram sentido para o sofrimento.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 30 JAN 2021

2 comentários sobre “O SENTIDO DA VIDA. (3) SOFRIMENTO E SENTIDO

  1. Senhor Padre Borges Anselmo

    A Igreja Católica Romana e Apostólica, permitiu isto, não foram os homens, como quer atirar a culpa para os Homens, existem fotos muito expressivas de padres, do Papa XII com criminosos, não há palavras que descrevam o horror.

    “É necessário aprender a alegria de superar obstáculos para atingir objectivos valiosos: já os Gregos associaram sofrer e aprender. Viktor Frankl verificou, concretametnte nos campos de concentração, que sobreviviam aqueles que ainda tinham um sentido para a sua existência: reencontrar a família, realizar uma obra, bater-se por uma causa, lutar por um ideal, proclamar ao mundo: “Nunca mais este horror!” “Dos que pudemos sobreviver só sobriveram os que encontraram sentido para o sofrimento.”

    https://www.dn.pt/cultura/o-lado-obscuro-das-relacoes-entre-o-papa-pio-xii-e-os-nazis-11948760.html

    O lado obscuro das relações entre o papa Pio XII e os nazis
    O DN publica todos os dias o excerto de um livro recém lançado no mercado para ajudar às leituras nestes tempos difíceis em casa. Devido à recente abertura dos arquivos do Vaticano sobre o papa Pio XII, a leitura de Pio XII e o Terceiro Reich, de Saul Friedländer (Editora Sextante), ainda se torna mais pertinente. Veja os outros aqui.

    22 Março 2020 — 03:45

    O núncio do Vaticano na Alemanha num encontro com Hitler.

    TÓPICOS Pré-publicação Hitler Papa Pio XII, Cultura para ler em casa
    Aatitude do papa Pio XII em relação ao Reich hitleriano e as razões do seu silêncio perante o extermínio sistemático dos judeus da Europa são objeto de perguntas angustiosas e de polémicas apaixonadas. Em face de tal problema, o historiador dificilmente pode pretender alcançar uma objetividade perfeita. Todavia, apesar da confusão criada nos espíritos pelas mais diversas e, por vezes, mais estranhas acusações e refutações, resta uma possibilidade de investigação honesta: ater-se, na medida do possível, aos documentos. Foi essa a regra seguida no estudo que empreendemos.

    Uma grande parte das peças que citaremos é inédita; outras são apenas conhecidas por um número muito limitado de especialistas; algumas foram mencionadas em estudos publicados há pouco, mas raramente na sua versão integral. Ora foi esse o segundo princípio metodológico que nos impusemos, apenas a citação do documento in-extenso permite que o leitor avalie o alcance e os matizes verdadeiros. Evitámos, portanto, na maioria dos casos, fazer cortes nos documentos citados, mesmo quando o estilo é prolixo ou certas passagens parecem fastidiosas. Apenas foram evitadas as passagens que não apresentam qualquer relação com o tema, as referências administrativas, as fórmulas de cortesia e certas repetições.

    Reinserimos os documentos citados no seu contexto histórico, acompanhando-os de breves observações destinadas a lembrar os acontecimentos do momento e, por vezes, acrescentámos comentários, quer para avaliar a veracidade provável do documento, quer para prestar esclarecimentos sobre os factos que neles são mencionados. Por vezes, tomamos uma posição. Nesse caso, o leitor pode rejeitar as nossas palavras. O texto do documento mantém-se.

    permitiram isto, o que vão permitir mais ? permitiram a Inquisição, permitiram as 4 cruzadas contra Jerusalém, para quê ? tanto poder que tem, Deus, aonde está ?

  2. Sabe Senhor Padre Anselmo Borges,

    Eu gostava muito que os Judeus, voltassem à sua origem que é Portugal e Espanha, a origem, foram estes que ajudaram a derrubar os mouros, foram estes que criaram o reino de Portugal em 744, foram estes que contem o seu livro sagrado de alguns milhares de anos, são estes que impulsionam os negócios no mundo inteiro, são estes que detêm multinacionais de vacinas, são estes que foram massacrados pelos seus Bispos e Cardeais (O Doutor Vicente Feyo Cabral, Defense bargador da Relação Ecclefiaftica,& Vigairo Géral do Arcebispado de Lisboa. De Inquisidores Apoftolicos &° ministros do Santo Oficio) e existem muitos assim e quanto mais leio do passado da descriminação perante o povo Judeu, mais me afasto da Igreja Católica Romana e Apostólica.

    Tanto poder que a sua Igreja tem, quanto mais leio, fico de boca aberta. Será que o vosso Deus, não tem um princípio básico como Kristo no templo que expulsou os judeus do templo para não fazerem negócio, quanto negócio os Senhores o fazem ? quanto o negócio que vai contra os princípios básicos da vossa organização ?

    Que Deus esteja convosco e que vós perdoe as imperfeições do ser humano.

    João Felgar

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