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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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AINDA O TEATRO DE ALFREDO CORTEZ

 

Na semana passada fizemos uma evocação do centenário da “Zilda”, primeira peça de Alfredo Cortez. E aí se referiu com destaque a heterogeneidade da vasta obra deste dramaturgo que de certo modo marca, inclusive por essa mesma heterogeneidade, a caracterização do teatro português ao longo do século, desde a “Zilda”, datada exatamente de 1920, até à “Moema”, escrita cerca de 20 anos depois: e isto, sem desenvolver referências a mais peças e a mais intervenções cénico-literárias deste autor, insista-se, referencial da modernização heterogénea do teatro  da época.

Recorde-se aliás que a “Zilda” data exatamente de 1921. E a partir dessa excelente peça, prossegue toda uma dramaturgia que, como já vimos, cobre a vasta variedade estilística que marca o teatro contemporâneo de qualidade…

Ora será então oportuno evocar a análise que lhe dedica Luiz Francisco Rebello na “História do Teatro Português” ou no estudo intitulado “100 Anos de Teatro Português”, pois trata-se de obras referenciais, não obstante a expressão sintética do estudo em si mesmo.

Mas nada disso obsta a uma interessante visão do teatro de Cortez, devidamente enquadrado na vastidão e heterogeneidade da sua obra, que aqui já temos aliás referido.

E no que me diz respeito, tenho, da mesma forma, dedicado à obra de Alfredo Cortez numerosos e vastos estudos, aqui também frequentemente referidos.

Mas cito então agora, designadamente Rebello, que nos “100 Anos de Teatro Português” escreve:

“Figura cimeira da dramaturgia portuguesa no período balizado pelas guerras de 14-18 e 39-45, a sua obra, de expressão rigorosa e linear, quase ascética, acusa um perfeito domínio da técnica teatral, uma análise impiedosa dos costumes da sociedade sua contemporânea e uma profunda compreensão anímica do povo português”.

E, da mesma forma, fazemos agora uma vasta transcrição do livro intitulado “O Teatro e a sua História” da autoria de Tomaz Ribas: e tenha-se então presente que Ribas comporta um memorial de intervenções diretas nas artes do espetáculo. Essa circunstância não é despicienda: pois está-se perante um crítico que na sua atividade profissional atuou diretamente e durante anos nas artes do espetáculo…

Pois acerca de Alfredo Cortez, escreve então Ribas em “O Teatro e a sua História”, livro evocativo do centenário do autor:

“Alfredo Cortez (1880-1946), com as suas nítidas influências ibsenianas e perandellianas, o seu pendor crítico e um não dissimulado gosto por temas de inspiração folclórica, é um excelente dramaturgo, sem dúvida um dos nossos maiores dramaturgos de todos os tempos e até, entre nós, um autor muito original e inovador; por outro lado, é um dramaturgo que ao longo das suas doze peças, saltita e percorre vários géneros: o drama psicológico, o teatro apologético, o teatro histórico, a comédia e o drama de crítica social e o teatro de inspiração folclórica. A sua obra geral apresenta-se numa equilibrada sequência cronológica de temas… de temas correspondentes às suas várias experiências ideológicas”.

Cita as peças. E acrescenta:

“Muito curioso e valioso é o domínio que Alfredo Cortez tem do linguajar popular” referindo muito concretamente “Saias” e “Tá-Mar”.

Em suma:

O teatro de Alfredo Cortez merece ser revisitado: o que, tendo em vista a natureza específica da obra teatral,  a expressão correta será outra: o teatro de Alfredo Cortez merece ser reencenado!…

 

DUARTE IVO CRUZ

2 comentários sobre “AINDA O TEATRO DE ALFREDO CORTEZ

  1. GLADIADORES: O TEATRO INOVADOR DE ALFREDO CORTEZ

    Isabelle Regina de Amorim-Mesquita*

    RESUMO:
    O objetivo deste estudo é resgatar a produção artística do português Alfredo Cortez (1880-1946), ainda muito pouco conhecida e estudada pela crítica acadêmica brasileira. Sua peça mais representativa é Gladiadores (1934): obra inovadora que rompe com os padrões dramáticos tradicionais e que propõe uma renovação para o drama português.

    PALAVRAS-CHAVE: Alfredo Cortez. Dramaturgia portuguesa. Inovação.
    Durante a primeira metade do século XX em Portugal, um dos mais representativos
    dramaturgos do teatro de vanguarda é Alfredo Cortez (1880-1946). Formado em Direito, o autor
    começa a dedicar-se à literatura por volta dos quarenta anos de idade e sua obra, diferentemente da
    grande maioria da dos escritores portugueses, compreende exclusivamente o teatro.
    Cortez escreveu doze peças e deixou manuscritos de outras incompletas. Além disso, foi
    tradutor e adaptador de teatro. Apesar de sua extensa produção dramática, a obra do autor ainda não
    recebeu da crítica acadêmica brasileira um estudo mais aprofundado. Este artigo, portanto, procura
    ampliar as pesquisas sobre o drama de Cortez e, em especial, sobre a sua peça mais representativa,
    Gladiadores (1934).

    O teatro de Alfredo Cortez não apresenta uma regularidade formal em seu conjunto, já que o
    dramaturgo trabalha com diferentes estilos e gêneros. De acordo com Cruz (1992), o organizador de
    seu teatro completo, as peças de Cortez podem ser divididas nas seguintes categorias:

    • realismo cuidado e violento: Zilda (1923), O lodo (1923), Bâton (1939) e Lás-lás (1940);
    • teatro em verso: A la fé! (1924);
    • ciclo católico: Lourdes (1927), O oiro (1928) e Domus (1931);
    • expressionismo: Gladiadores (1934);
    • regionalismo poético: Tá-mar (1936);
    • naturalismo: Saias (1938) e Moema (1940).

    Dentro dessa amplitude de esquemas técnicos formais utilizados por Cortez, existe uma linha
    temática que as une: o destaque à problemática social. Todas as peças do autor analisam os costumes da sociedade portuguesa de sua época e refletem um novo interesse para as angústias humanas. Neste

    Ao contrário de outros dramaturgos portugueses de seu período, como Almada Negreiros e
    Branquinho da Fonseca, Cortez teve a oportunidade de ver suas peças realizadas em sua plenitude, com a encenação. Sua primeira obra, Zilda, teve uma boa receptividade tanto do público como da crítica teatral, que apreciaram o apelo realista do texto. Com Zilda, Cortez resgata o drama realista – modelo dramático que não frutificou em Portugal como em outros países da Europa (ao contrário do que ocorreu com o drama naturalista, como lembra Rebello [1979]).

    O fato de Cortez ter alcançado êxito em sua estreia como dramaturgo não quer dizer que a sua
    primeira obra seja considerada a sua peça melhor acabada. Na verdade, o sucesso de Zilda deveu-se ao fato desta ser convencional do ponto de vista da forma e pouco agressiva ao analisar a sociedade
    burguesa pelo prisma feminino – o que não incomodou o público e a crítica acostumados aos dramas
    naturalistas e aos melodramas burgueses em vigor no período.
    Depois de Zilda, Cortez escreveu outras peças que não fugiam ao modelo tradicional que o
    consagraram como um autor de boa aceitação perante o grande público: O lodo, A la fé!, Lourdes, O oiro e Domus.

    A obra que realmente incomodou foi Gladiadores. No espetáculo de estreia realizado em 12 de
    janeiro de 1934, pela Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, em Lisboa, a indignação da plateia foi
    generalizada e o autor foi recebido com escandalosas vaias:
    Quando cá estive, em janeiro do ano passado, embora rapidamente, assisti a uma
    audaciosa tentativa de renovação brusca de teatro, renovação que não ficaria
    circunscrita a Portugal: os Gladiadores. Presenciei, emocionado, o espetáculo, inédito
    para mim, de uma vaia! E senti ao mesmo tempo que os protestos daquela plateia
    culta passariam para a história do teatro português…

    João Felgar

  2. Continuação:

    file:///C:/Users/Asus/Downloads/3624-Texto%20do%20artigo-5962-1-10-20180413.pdf

    Depois do espetáculo de estreia, Gladiadores só subiu novamente aos palcos lusos trinta e
    quatro anos depois, em 1968, com uma encenação do Grupo Teatral Freamundense. A peça, contudo,
    vem sendo redescoberta por grupos atuais que, em 1993, 1995 e 1996, tornaram a colocar à cena o
    texto de Cortez.

    Em Gladiadores, a novidade reside, principalmente, em como a história é narrada. Como já
    dissemos, os temas tratados pelo dramaturgo possuem sempre um apelo ao social, contudo, a forma
    como o autor aborda as questões sociais especificamente nesta peça é inovadora.
    Conforme comenta Cruz (1983), a recepção de Gladiadores foi negativa tanto no que toca à
    opinião do público, como a da crítica, porque, entre outros motivos, a peça apresenta elementos da
    estética expressionista, ainda muito pouco conhecida em Portugal na época:

    O expressionismo, quase desconhecido entre nós à data da estreia, estará
    eventualmente na origem do escândalo imenso desta peça, um dos maiores escândalos
    da história pacata e breve do nosso teatro contemporâneo. Alfredo Cortez guarda
    assim a glória e o escândalo da agitação que a sua obra iniciática conseguiu produzir
    (CRUZ, 1983, p. 167).

    Sob esse ponto de vista, podemos considerar que Gladiadores é uma peça precursora do teatro
    expressionista em Portugal e contribui, com seus experimentalismos formais, para o questionamento da tradição dramática portuguesa, ainda muito apegada aos pressupostos artísticos oitocentistas.
    A peça tem o subtítulo de “caricatura em três atos” e uma nota esclarecedora do autor é
    apresentada antes de iniciar o primeiro ato:

    Não nos parece desnecessário esclarecer ainda que, sendo Gladiadores uma caricatura –
    caricatura da época mundial que atravessamos –, tem de ser, como foi, interpretada
    em atitudes e movimentos maquinais que, dentro da justa medida, lhe emprestem o
    máximo de irrealidade (CORTEZ, 1992, p. 442).

    O texto dramático de Cortez trata de problemas que a sociedade enfrenta, reflete sobre os
    relacionamentos humanos, mas não deseja fazer uma reprodução fiel da realidade; ao contrário, a peça aponta quais são os problemas reais do princípio do século XX, entretanto, o faz de forma distanciada, desfigurada, grotesca, caricatural – recurso, aliás, utilizado pelos artistas expressionistas.
    O Expressionismo surge na Alemanha no princípio do século XX e coincide com um período
    de turbulências sociais, políticas e econômicas do entre guerras. No âmbito das artes, o movimento,
    assim como as demais vanguardas, propõe uma ruptura com a estética oitocentista de cunho naturalista e positivista ainda preponderante nos primeiros anos do século XX.

    A Isabelle Regina de Amorim-Mesquita, consegue dar uma imagem de Cortez perfeita.

    João Felgar

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