“Cantam ao longe. Anoitece.
Faz frio pensar na vida ;
E a Natureza parece
Dizer, em voz comovida,
Que o Homem não a merece”.
Há meio século, Carlos Queiroz adivinhou. Parecemos ter perdido o fio de Ariana, regressou o Minotauro e o palácio de Cnossos pode uma vez mais desmoronar-se.
Nem já Murilo Mendes, como há quarenta anos, prometeria voltar ” para saudar o reino mineral onde a desordem é mínima” . Até no reino mineral a desordem é máxima e aquilo a que chamamos progresso é um rasto de caracol.
Mas existem homens como o Gonçalo, que parecem ter estado naquela ardente madrugada bíblica em que Jesus Cristo entrou na barca de Simão-Pedro e lhe disse: ” Faz-te ao largo; lancem as vossas redes para pescar”.
“Duc in altum” – faz-te ao largo, olha para longe, e as redes romper-se-ão com o peixe em abundancia.
Sempre o conheci, ora como um principe flamengo saído do retábulo do juízo final de van der Weyden em Beaune, ora a clamar no deserto entre nuvens de gafanhotos.
O seu paradigma foi a geometria sábia que a Natureza nos oferece, envolta na substância preciosa que tece a evolução do Mundo. A beleza como pedra de toque da verdade e o homem como elo de ligação da Terra ao Universo.
Foi gradualmente chegando aos pontos fulcrais da vida como se afinam os instrumentos de uma orquestra e é isso a cultura.
Insurgiu-se corajosamente contra a ignorância assassina do futuro, mas soube tambem olhar para trás, integrar na realidade dos seus sonhos as coisas imaginadas, forjadas, criadas pela humanidade ao longo dos séculos, os seus mitos e os seus símbolos.
Assim enfrentou e continua a enfrentar o que há-de vir, com o seu corpo que é a sua alma, rochedo de força que não tergiversa e deixa por onde passa o perfume das flores que se abrem e dos frutos que amadurecem, o brilho do cobre, a lembrar-nos de que a Natureza vive ainda.
Se no teste das associações viesse à baila o seu nome, eu responderia: ” S. Cristóvão “, que transportou o mais extraordinário peso do mundo com uma ímpar convicção humana.
Alberto Vaz da Silva