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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CARTAS PARA A OUTRA MARGEM

Silente Princesa de mim:

   Em muitas das cartas que te fui escrevendo à vista de todos, te falei na inesgotável questão do espírito crítico: como se alcança e educa, como se preserva para benefício social e cultural da liberdade responsável. A livre responsabilidade é esteio fulcral de qualquer cultura que se preze, condição sine qua non da democracia social. Por isso mesmo deve estar no centro da nossa reflexão sobre a educação (ou construção da cultura) numa sociedade livre, e assim ser objeto de fraterno cuidado. Ora, no tempo presente, modos vários (e suas modas) parecem conluir-se para aquilo a que já o saudoso Bernanos chamava robotização dos humanos. E vamos perdendo discernimento, serenidade de análise e alvedrio, na exata medida da nossa embriaguês “noticiosa” e das galopantes ondas de “opiniões” e comentários que nos assaltam.   

   E porque até nos cabe na palma da mão um desses aparelhos que, em poucos segundos (aliás, convém não esquecer que a velocidade das comunicações já se tornou em argumento fundamental da publicidade comercial desses aparelhos), nos trazem novidades e comentários às mesmas, além de assertivos conhecimentos históricos e científicos, todos nos vamos tomando por estudiosos e sábios, prontos a discutir qualquer assunto ou matéria… E se acontecer que alguém calma e seguramente nos contradiga e explique, logo retorquimos que cada qual pensa o que quer e cada um tem sempre direito a ter a sua opinião…

   Assim se vai matando o diálogo e destruindo as oportunidades de educação e enriquecimento mental mútuo. E, lamentavelmente, vamos substituindo o gostoso esforço da ponderação e da investigação pela leviana apropriação fácil de conceitos e termos que nos eram e são alheios, até porque nem nos exercitamos ao seu entendimento. Sinal ubíquo de tal infeliz realidade é o número crescente de neologismos desnecessários que vão surgindo por aí, ao acaso das nossas falas e escritas quotidianas. Pior ainda: já nem procuramos as palavras portuguesas que, na nossa própria linguagem, dizem bem e precisamente – e com melhor entendimento por todos – aquilo que traduzimos mal, e até desvirtuando-lhe o sentido.

Veja-se, por exemplo, este texto da Universidade Católica Portuguesa (e, aliás, a talho de fouce, não deixemos de estranhar o facto de como, ainda que através de um departamento designado em inglês, uma universidade católica se entretém a ministrar cursos sobre gestão do luxo…). A notícia aqui transcrita foi originalmente publicada pelo jornal Sete Margens, no passado dia 7 de agosto:

   A 14ª edição do programa “Gestão do Luxo” da Católica Lisbon Business & Economics (o nome da faculdade é em inglês) inicia-se no dia 24 de setembro. Os interessados podem escolher entre “assistir presencialmente ou por transmissão live virtual”.


   O anúncio indica que “o programa de ´Gestão do Luxo´ propõe uma visão abrangente do universo do luxo e é dirigido a todos os profissionais que pretendam incorporar mais valor às marcas e projetos que dirigem” [sic]. O programa “propõe ainda o estudo dos principais setores de atividade que compõem este heterogéneo mercado, revelando as suas estratégias, ilustradas e enriquecidas com case studies e best practices” [em inglês no original].
[…]


   Os “profissionais que trabalham no mercado do luxo e que pretendem consolidar ou alargar os seus conhecimentos” e os “que pretendem vir a trabalhar no mercado do luxo ou que queiram adquirir conhecimentos e competências que lhes permitem acrescentar valor aos produtos e serviços que gerem” são os destinatários do programa que disponibiliza um “fim de semana residencial que pretende dar a conhecer os bastidores do luxo e onde se promovem momentos de networking [sic] e convívio”. O programa, dirigido por Mónica Seabra-Mendes, “é suportado [sic] por um grupo de professores de renome nacional e internacional.”

   Prefiro, silenciosa Princesa de mim, deixar-te a notícia tal qual a colhi no jornal digital Sete Margens, pois não quero que alguém pense que a inventei. Os meus seguintes reparos, dela arrancam sugestões, mas a ela não se limitam: respigo, por exemplo, a expressão “é suportado” que, tanto quanto entendo do seu contexto e sentido, quer ali dizer “apoiado”… Mas quem a escreveu, verteu sem critério a expressão inglesa “is supported” que, em português de gema se diz “é apoiado”. Na verdade, por muito que certas expressões tenham as mesmas raízes etimológicas, a sua evolução semântica, o uso que os povos vão fazendo delas, podem conduzi-las – e têm-nas conduzido – a diferentes significações. Neste caso, em português, suportar tem o significado original de suster, mas sem a qualidade de ser por vontade própria, quiçá entusiasta, certamente livre, do mesmo ato no vocabulário inglês. Antes será interpretado como “aturar” ou “aguentar” algo que não nos agrada. Está, portanto, longe de querer dizer que é apoiado, ou sustentado, ou que se fundamenta e tem a concordância de… Quanto aos case studies, best practices, networking, e transmissão live – tudo isso tem facílima tradução para português.

   Afinal, talvez soframos a generalizada influência da “cultura futebolística” sobre a formatura do nosso discorrer quotidiano. Mesmo desde essa outra margem onde estás deves poder observar as inúmeras vezes que “pensadores”, comentadores, gente da “cultura” e da “política”, recorrem, em declarações e discursos públicos, a exemplos, metáforas, lições várias colhidas no universo e na terminologia ludopédica… O futebol é hoje a primeira escola de luso pensamento. Já dizia o nosso Eça que tudo nos chega pelo paquete. Acrescento-lhe, hoje em dia, “ou nos é dado pela cultura futebolística”.

   Por outro lado, co nosso ideal democrático vai-se orientando pelo culto da liberdade individual como direito próprio, com confrangedora ausência do sentido consciencioso da responsabilidade comunitária. Cada um terá direito a ter opinião e a emiti-la socialmente, sem qualquer obrigação moral de a acarear, ponderar e, eventualmente, corrigir. Guiados por simpatias e antipatias, por emoções e preferências, até chegamos a ser ou parecer pretensiosos justiceiros que, na praça pública, vão proferindo sentenças em processos cujo conteúdo e circunstâncias desconhecemos. Em tão alta estima, pessoal e social, nos tomamos – e aos nossos alvitres (dicas ou bocas em linguagem plebeia e ignara) – que vamos inventando uma língua nova, com a nossa falta de filologia e extrema facilidade de anglicismos: já não digo experimentei mas sim experienciei; não percebi, percecionei; não esperamos, antes expectamos; tão pouco acedo, posto que acesso; talvez por isso seja difícil encontrar um acesso, mas fácil encontrar uma acessibilidade…

   Oxalá se consiga pôr (hoje diz-se meter) grupos de trabalho à obra em rede e cooperação (ou seja, task forces networking), para que tantos e tão sábios falantes hodiernos venham também a entender o que até aqui foi revelado aos pequeninos.

 

Camilo Maria

    

Camilo Martins de Oliveira

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