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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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500 ANOS DE PEÇAS DE GIL VICENTE

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Referimos hoje um conjunto de peças de Gil Vicente escritas há exatos 500 anos. Trata-se de evocação cronológica que não envolve qualquer esquema de apreciação das peças em si mesmas ou de relevância que assumem na dramaturgia do autor ou da época. Mas merece referência esta expressão cronológica, pois significa em si mesma como que um reconhecimento da cronologia que assiste também ao historial do teatro português, mas que tantas vezes não é ponderado como tal…

São peças datáveis de 1520/1521. E será então oportuno recordar que a primeira intervenção, como tal assumida, de Gil Vicente dramaturgo terá sido em 1502, na câmara de D. Maria, mulher de D. Manuel I que dera à luz, expressão mais da época do que de hoje, o herdeiro do trono, futuro Rei D. João III.

Entrou um “pastor” e saudou a coroa. Era junho de 1502: e aí referiu de forma desde logo exponencial o nascimento do príncipe. Assume-se como vaqueiro e esclarece as sua razões: “se tal soubesse / não viera, / e vindo / não entraria, / e se entrasse / eu olharia / de maneira /que nenhum me chegaria”…

O “Auto da Visitação” ou “Monólogo do Vaqueiro”, como já escrevemos, entrou e ainda cá está e ficará! E isso não obsta a que o próprio Gil Vicente dele próprio escrevesse com reticências: “Um Gil, um Gil, um Gil… / que má retentiva ei / um Gil… Já não direi: / um que não tem nem ceitil / que faz os autos a El-Rei!”

Mas não seria exato: pois escreveu cerca de 45 obras, em português e em castelhano, e como já referimos na “História do Teatro Português”, é comumente dado como nascido em Guimarães em 1465: mas tudo isso é questionável: por exemplo, Teófilo Braga defendia a teses do nascimento em 1470. Em qualquer caso, documentos rigorosos dão-no como falecido em 1540.

E em qualquer caso, os diversos estudos e edições apontam para algo como cerca de 50 títulos que, no seu conjunto, constituem não apenas a obra vicentina em si mesma considerada: mais do que isso, representam uma abordagem global do teatro-espetáculo, numa qualidade que em muito transcende a abordagem global da nossa dramaturgia.

Muito haverá sempre a dizer sobre esta obra no seu conjunto e na sua especificidade. É um tema que não terá nunca fim…

E nesse sentido, apraz-nos terminar esta referência com duas citações, uma delas do grande mestre que foi e é Luis Francisco Rebello na “História do Teatro Português” (1967) de que é autor.

Escreveu então Luis Francisco Rebello:

“Entre 1502 e 1536, Gil Vicente escreveu, interpretou e pôs em cena (pois, como em Ruzzante, Shakespeare ou Molière, coincidiam nele o autor, o ator e o encenador) cerca de cinquenta autos de que a maior parte foi reunida por seus filhos Luis e Paula Vicente numa Compilação editada em 1562 e reeditada vinte e quatro anos depois com graves censuras impostas pela censura inquisitorial. Dividiram aquela obra paterna em quatro secções – obras de devoção, comédias, tragicomédias e farsas – mas esta distinção por evidente arbítrio na medida em que aglutina obras disseminantes e separa obras afins.

Mais curial, sem dúvida, é a classificação tripartida (“comédias, farsas e moralidades”) alvitrada pelo próprio Gil Vicente, que engloba nos dois primeiros grupos os autos de temas dissemelhantes e separa obras afins. Engloba nos dois primeiros grupos os autos de tema e inspiração seculares e no último os temas religiosos.

E segue-se uma lista classificada das peças . (in “História do Teatro Português” – ed. Europa-América 1981).

Essas peças, no seu conjunto, constituem de facto uma origem notabilíssima da dramaturgia portuguesa. São quase 50 as que chegaram até nós. E como a referência hoje aqui feita situa a cronologia, citamos agora tão só as que mais ou menos correspondem à cronologia hoje existente…

E podemos então referir: “Farsa dos Ciganos”, “Auto de Deus Padre, “Justiça e Misericórdia”, “Obra da Geração Humana”, “Comédia de Rubena”…

Tudo isto será no mínimo questionável, no que se refere às obras e mais ainda às datas. E em qualquer caso, importa aqui recordar o que o próprio Gil Vicente de si mesmo escreveu:

“Um Gil, um Gil, um Gil… / que má retentiva ei / Um Gil… já não direi: / um que não tem nem ceitil / que faz os autos a El-Rei!”

 

DUARTE IVO CRUZ

2 comentários sobre “500 ANOS DE PEÇAS DE GIL VICENTE

  1. Ai Gil o que contam de ti, tantos feitos e morreste na miséria, desprezaste a lingua portuguesa e preferiste ir para Espanha e Bruxellas, será que os comentadores sabiam desta façanha deste Poeta.

    Ai Gil os portugueses da Republica contam coisas de ti, com tanto mérito, 50 obras dizem eles, mas não tem informação, atiram para o ar, é como Pedro de Mascarenhas de embaixador em Bruxelas o que inventam, inventar é a maior conquista dos portugueses, inventar, ai Gil, não te digo mais nada.

    Historia de la literatura y del arte dramático en España, Volume 1

    Conveniente es, sin duda, hablar de Gil Vicente, poeta portugués, al escribir la historia del teatro español, no sólo por la influencia que sus composiciones dramáticas, escritas para su país natal, tuvieron en el desarrollo del arte de esta nación vecina, sino también por las que escribió en castellano, de nuestra propia y peculiar incumbencia. Gil Vicente (1) nació en la segunda mitad del siglo xv, aunque no es posible fijar con exactitud el año, ni tampoco el lugar de su nacimiento, que, según unos, fué Guimaraens, y, según otros, Barcellos ó Lisboa (2), Era de familia distinguida, y se dedicó, por dar gusto á sus padres, á la carrera del foro. Sin embargo, fué tan irresistible su inclinación á la poesía, que no se vió satisfecho hasta que abandonó el estudio de la árida jurisprudencia, y se consagró por completo al culto de las musas. Su primera obra dramática se representó el 6 de junio de 1502 en la corte de Manuel el Grande. Destinose á celebrar el natalicio del infante, que después subió al trono con el nombre de Juan III, y tuvo tal éxito, que alentó al poeta á seguir con ardor la senda comenzada. Representáronse también

    (1) Barbosa Machado, Bibl. Lusit., lib. II, págs. 383 y siguientes.

    (2) Antonio de Lima, Nobiliario, art. Meneses.–Pedro Poyares, Paneg do Villa da Barcellos, cap. 16.

    otras piezas suyas en el reinado de D. Manuel, aunque el período más brillante de su vida poética caiga en el de Juan III, tan aficionado á los dramas de Gil Vicente, que representó en algunos ciertos papeles. La fama del poeta voló por el extranjero, y Erasmo de Rotterdam aprendió el portugués, sólo con el objeto de leer en su lengua las obras de Gil Vicente.

    Tales son las noticias, que tenemos, de la vida y obras del autor cómico, más ilustre de su tiempo. No se sabe, si á semejanza de los poetas dramáticos más antiguos de España, fué también director de teatro, aunque no hay duda alguna de que representó en varias composiciones suyas (I),

    (1) Así resulta de los siguientes versos de su coetáneo Andrés de Resende:

    Cunctorum hinc acta est comcedia plausu,
    Quam Lusitana Gillo auctor et actor in aula
    Egerat ante, dicax atque inter vera facetus:
    Gillo jocis levibus doctus præstringere mores,
    Qui si non lingua componeret omnia vulgi,
    Sed potius latia, non Græcia docta Menandrum
    Ante suum ferret; nec tanı romana theatra
    Plautinave sales, lepidi vel scripta Tereutî .
    factarent: tanto nam Gillo præiret utrisque,
    Quanto illi reliquos inter, qui pulpita rore

    Oblita Coryceo digito meruere favente. (Con aplauso de todos se representó aquí la comedia Lusitana, que el autor y actor Gil, discreto y gracioso como pocos, representó antes en el palacio: maestro fué Gil en corregir las costumbres con sus ligeros chistes, y es seguro, que, si en vez de escribir todas sus obras en lengua vulgar, las hubiese escrito en la latina, ni le sería

    Tampoco se sabe con certeza la época en que falleció, si bien se presume que debió ser hacia el año de 1536 (1). Su hija Paula heredó su fama como excelente actriz, y su hijo Luis fué un poeta de los más populares. Este publicó en el año de 1562 la primera edición completa de las obras de su padre (2).

    superior Menandro, joya de la docta Grecia, ni el teatro romano se envanecería con las sales de Plauto ó los escritos de Terencio, pues aventajaría tanto á ambos, cuanto aventajaron ellos a todos los demás que merecieron aplausos, y que el licor coryceo regase los púlpitos.)

    La comedia de que habla Resende es La farfa de Lusitania, que se compuso en honor del infante D. Manuel, y fué representada en el año de 1532 en casa del embajador portugués en Bruselas.

    João Felgar

  2. O livro de 1791 é o registo mais antigo e trago em latim de Gil Vicente, é giro ver a invenção de criarem coisas onde não existem, ai Gil Gil Gil

    (1) De este año es la última composición suya (Floresta de engaños), que, como casi todas las demás, lleva la secha de su primera representación. Ya en el año de 1531 decía al rey Juan III en una carta que estaba muy visinho da morte.

    Si las últimas producciones dramáticas de Gil Vicente alcanzan hasta bien entrado el siglo xvi, las primeras, como hemos dicho, se escribieron en el primer decenio del mismo, y por tanto, siguen también inmediatamente a las primeras de Juan del Encina. Son, sin em

    (2) Compilaçao de todas las obras de Gil Vicente, a qual se reparte em sinco livros. O primeiro, suas cousas de devogao. O segundo, as comedias. O terceiro, as tragicomedias. O quarto, as farças. No quinto, as obras meudas. Lisboa, 1562, fol.—Hasta en Portugal es rarísima esta edición, y es probable que en Alemania no exista otro ejemplar, que uno de biblioteca de la Universidad de Gottinga. He aquí el catálogo de las obras dramáticas que contiene:

    OBRAS DE DEVOÇÃO. 1. Visitaçao.-2. Auto pastoril castelhano.-3. Auto dos Reis Magos.-4. Auto da Sibila Casandra.-5. Auto da fé.-6. Auto dos quatro tempos.—7. Auto da Mofina Mendes.-8. Auto pastoril portuguez.-9. Auto da Feira.-10. Auto da Alma. -11. Auto da barca do Inserno.

    – 12. Auto da barca da Gloria.-14. Auto da historia de Deos.-15. Diálogo sobre á Resurresçao.-16. Auto da Cananea.-17. Auto de S. Martinho.

    COMEDIAS
    1. Comedia de Rubena: scena primeira, scena segunda, scena terceira.—2. Comedia do Viuvo.-3. Comedia sobre á divisa de cidade de Coimbra.

    TRAGICOMEDIAS.
    1. Dom Duardos.-2. Amadís de Gaula.-3. Nao d’Amores.-4. Fragoa d’Amor.-5. Exhortaçao da guerra.-6. Templo d’Apollo.—7. Cortes de Júpiter. 8. Serra da Estrella.-9. Triunpho do Inverno.—10. Romagem de Aggravados.

    FARÇAS. 1. Farça de Quem tem farelos.-2. Farça chamada Auto da India.-3. Farça chamada Auto da Fama.4. Farça do Velho da Horta.-5. Farça chamada Auto das Fadas.-6. Farça de Inez Pereira.—7. Farça do Juiz de Beira.–8. Farça das Ciganas.-9. Farca dos Almocreves.-10. Farça do Clerigo de Beira.—11. Farça chamada Auto da Lusitania.-12. Farca dos Físicos.

    DISCURSOS POLITICOS. P 0 R MANOEL SEVERIM DE FARIA CHANTRE, E CONEGO NA SANTA
    SE’ DE EVORA. FIELMENTE REIMPRESSOS POR JOAQUIM FRANCISCO MONTEIRO DE CAMPOS COFLHO, E SOIZA.
    Tinto እ LISBOA NA OFFIC. DE ANTONIO GOMES, ANNO M. DCC. LXXXXI. (1791)

    Aticis venerem &c. E Celio Rodiginio confirma o mesino: (*)Cæterum quæ de Cam mico lepore, ac venuftate dicimus, adhuc ad Græcam rationem magis spectant &c. Ita eft in comadia maximé claudicamus. Esta brevidade, graça, e decoro, que os Latinos delejavaó, fe vem taó praticadas nas Comedias Portuguefas de Francisco de Sáa,e Antonio Ferreira, e em algumas de Jorge Ferreira, que a juizo de todos os doutos nao tem fuperior. Nem he para esquecer o louvor que se deve nas nossas farças a Gil Vicente, o qual imitando as fabulas Athelanas , que incluîao em si as representações que chamao Planipedias , e Tabernarias , por serem dos Infimos da Republica ( de que tambem já Aristoteles na sua Poetica faz mençað ) compôs algumas farças com tað graciosa eloquencia, que do nosso Joao de Barros ‘he por isso mui louvado : e o Mestre André de Rezende affirma que se como escrevêo na nossa lingoa particular compusera na Latina, que he commua a todos, nað alcançára menor no nome que Menandro, Plauto, Terencio, como le vê nestes versos de seu Genetliaco do Principe D. Joao

    (*) Antig. lect. lib. 6. 6. 17. .
    : Cunetorum hinc acta est comedia plausu , Quam Lusitana Gillo Au&tor, 6. Actor in aula, Egerat ante, dicax, atque inter vera facetas Gillo locis levibus doctus præstingere mores; Qui fi non lingua tomponeret omnia vulgi , Et potius latia, non Grecia docta Menandrum Ante suum ferret , nec tam Romana theatra Plauiinos ve saleis , lepidi vel fcripta Terenti Lactarent ; tanto nam Gillo preiret utrisque. Quanto ilți reliquis inter qui pulpita rore Oblita corycio, digitum mer vere faventem. &c. Por estes, e outros exemplos conclue Duarte Nunez de Liao(*) hum largo difcurso sobre esta inateria dizendo: Nao ba para que se negue a facilidade, e suavidade da lingoa Portuguesa

    João Felgar

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