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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

34. PRAXES

Estudantes de capas pretas desfilam em cortejos chamativos, ruidosos e cinzentos, coagindo e humilhando iniciandos que nos anos seguintes o farão a outros, numa sucessão temporal de décadas.    

Uns são a favor. Outros, contra. Há quem relativize.

É um ritual passageiro que faz parte da juventude, num grupo de ignorantes intolerantes, ou de todos fomos assim, consoante a opinião.  

Os que praxam e os que são praxados, na maioria estudantes universitários, serão as futuras elites do país, que fazem o culto da subordinação, humilhação e sofrimento como valor essencial, valorizando relações hierárquicas. 

Uma causa de exclusão da ilicitude, um costume consuetudinariamente reconhecido.

Estranha-se que os que são alvo de violência e de violações de direitos humanos o permitam, submetendo-se e sujeitando-se.  

Há, infelizmente, condições estruturais e sistémicas para tais submissões, que beneficiam uma cultura reverencial pelo poder, paternalista, paroquial, de ausência de escrutínio e de sentido crítico.  

A que acresce a possibilidade de os que foram praxados poderem, mais tarde, puxar dos galões e praxar os novos “caloiros”, compensando-se e perpetuando uma tradição de práticas desadequadas num país que se quer civilizado.

Por que não, em alternativa, atividades, eventos, cortejos, festivais culturais e desportivos, sem o aviltamento e sevícias das praxes?   

A vontade de praxar e ser praxado, de a praticar e aceitar, dando azo a exibicionismos e obscenidades barbaras e censuráveis, é um sintoma deprimente da nossa atual juventude, com reflexos de caraterísticas de permanência traduzidas numa forma atávica do nosso atraso como sociedade, por maioria de razão vinda duma geração universitária geradora de elites.  


03.12.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

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