A joalharia da linguagem de Stéphane Mallarmé deu nascimento a uma renovação da poesia na segunda metade do século XIX em França.
A utilização dos símbolos para exprimir as verdades escritas, só surgiria para Stéphane, se do pensamento à palavra existisse uma correspondência clara entre poesia e música. Emerge assim a música do poema, como «uma hesitação prolongada entre o som e o sentido» tal como expressou Valéry.
À experiência mallarmeana não foi também alheio Fernando Pessoa.
Escreve o heterónimo Ricardo Reis «A poesia é uma música que se faz com ideias, e por isso com palavras». A «ideia» assume em Pessoa a função fundamental, e apreende a sensibilidade de Mallarmé no seu transportá-la pela musicalidade. De resto a existência de um exemplar da 3ª edição das Poésies de Mallarmé nas mãos de Pessoa, e por ele as palavras sublinhadas, revelam uma meditação inequívoca do nosso poeta no pensamento refinado e repleto da musicalidade mallarmeana.
A influência de Mallarmé é ainda sentida em poetas de hoje como Yves Bonnefoy que tanto utiliza os símbolos herméticos dos estados de alma ao jeito da revolução poética exprimida na modernidade de Mallarmé.
Numa quase vontade alquímica de explicar o mistério órfico da terra, morre Mallarmé sem atingir este objectivo, mas não sem que antes solicitasse que se queimassem uma parte dos seus escritos, tal como o fizera Franz Kafka.
Que de lis multiple la tige
Grandissait trop pour nos raisons
Assim Stéphane por entre o meu espanto, ou a famosa «musicienne du silence».
Teresa Vieira
