De 20 a 26 de junho de 2022.
«Deve&Haver» de Mário Mesquita (1984) dá-nos a imagem do escritor e cronista que o autor foi, como figura marcante da cultura contemporânea.

UMA BOA METÁFORA
Intencionalmente, ao recordar nestas páginas, a memória de Mário Mesquita, escolhi um título improvável. Falo do célebre livro de E.P. Jacobs, protagonizado por Blake e Mortimer, que invoca os Açores e o mito antigo de um fantástico continente desaparecido (1957). Como é fácil de compreender, a invocação é um pretexto para lembrar vários amigos açorianos e uma solidariedade atlântica com especial pendor democrático. Como sabem bem os meus amigos, esta minha ligação tem a ver com Antero de Quental, e com um culto especial que lhe devoto, por razões familiares, sobretudo quando outros com elos mais próximos manifestavam estranhas distâncias. Desde sempre convivi com a memória do poeta e com a sua imagem, marcada pela beleza dos seus poemas que aprendi de cor e pelo seu magistério de pensador e idealista. “Sonho que sou um cavaleiro andante. / Por desertos, por sóis, por noite escura, / Paladino do amor, busco anelante, / O Palácio encantado da ventura”. Desde que conheci Mário Mesquita estas raízes comuns de uma certa açorianidade liberal e progressista estiveram sempre presentes, não só no sentido da nossa amizade, mas também enquanto independência e culto de diferenças e convergências, que o tempo só reforçou, a ponto de termos ficado com temas aprazados ainda para tratar, que não esquecerei. Oliveira Martins foi tão próximo do poeta micaelense, a ponto de dizer quando recebeu a notícia do trágico desenlace – “Se eu estivesse junto dele, o Antero não se teria matado”. Ou, quando o médico José Tomás Sousa Martins, junto ao leito de morte, lhe disse que tinha terminado o texto para o “In Memoriam”, o historiador afirmou serenamente não ter isso importância porque o leria já na companhia do dileto amigo… Antero e os Açores fizeram sempre parte da nossa amizade, cientes de que a liberdade e a vida se constroem nos dias de hoje, para além dos bons exemplos dos nossos antepassados. A dúvida e a atitude cética estavam presentes no modo de ser de Mário Mesquita. “A cultura de debate é inerente à democracia”. Afinal, para podermos caminhar, teremos de ser críticos, atentos e nunca conformistas. Foi assim, também com José Medeiros Ferreira, em longas e profícuas convergências sobre os temas europeus, designadamente na defesa da necessidade de um Senado europeu, para ultrapassar o défice democrático e ir ao encontro da dupla legitimidade, dos Estados e dos cidadãos, sem a qual a democracia europeia continuará frágil e incompleta. E falando de sentido exigente e crítico, o mesmo se diga de Jaime Gama, Eduardo Paz Ferreira (meu colega e amigo próximo) ou ainda de Mário Bettencourt Resendes, que também aqui desejo invocar. Francisco Seixas da Costa tem razão em falar de uma “Ínclita Geração” de açorianos democratas, chegados a Lisboa em finais da década de 60, cerca de cem anos depois das emblemáticas Conferências do Casino Lisbonense, do mesmo modo que é muito ajustada a palavra “plêiade” usada por Onésimo Teotónio de Almeida (cf. JL, 1 a 14 de junho 2022). Esse o enigma da Atlântida.
ESCREVER COM CLAREZA
“Saber redigir uma notícia e fazer uma reportagem é treino seguro para se aprender a escrever com clareza” – lembra Onésimo. “No entanto alguns jornalistas ficam-se apenas por aí. Os espíritos talentosos, porém, sabem depois acrescentar à escrita uma dose de elegância q.b. que sem afetação toca o paladar do leitor e o faz tomar-lhe o gosto, a ponto de o tornar saudavelmente dependente. (…). Em Mário Mesquita, a longa experiência jornalística aliada ao gosto literário fundiram-se numa escrita ágil, subtil – subtileza a um deveras elevado grau – arguta e incisiva, produzindo uma prosa fresca, por vezes mordaz, arejada, inteligente e segura”. Os seus editoriais eram marcantes, com a precisão do bisturi. Foi, de facto, um dos melhores cultores da língua portuguesa. E está dito aqui, com meridiana clareza o que merece ser dito. Lembramos os melhores momentos do nosso jornalismo político, vindo à lembrança os heroicos tempos de Rodrigues Sampaio com “O Espetro” (1846), – antecâmara clandestina de “A Revolução de Setembro” -, que no combate se tornou paradigma da ligação entre a escrita e a luta pela liberdade, contra a “lei da rolha” e todas as formas de censura. O único modo de abater as barreiras censórias ou limitativas está em publicar e em trabalhar. E o jovem Mário Mesquita foi exemplo premonitório nas véspera de 1974, sobretudo lembrando-nos de “Portugal sem Salazar” (com Manuel de Lucena, António Barreto, Medeiros Ferreira e Valentim Alexandre), e da entrevista durante muitos anos mantida inédita feita em 1970, e publicada por Maria Inácia Rezola, a Ernesto Melo Antunes, que constitui um exercício notável de inteligência política e de capacidade de entender a história por antecipação, para não falar da entrevista a Eduardo Lourenço de 1972. Trata-se de peças notáveis, podendo mesmo dizer-se não ser possível escrever a história da transição democrática sem essas peças fundamentais. Como afirma no prefácio de “Portugal sem Salazar”, o jovem jornalista, como “public intelectual”, perante a censura haveria dois modos de contrariar tal tendência, publicando o que era possível, e ainda refletindo e trabalhando no sentido de recolher a informação necessária, em contacto com a realidade, ouvindo os protagonistas. E volto a concordar com Onésimo Teotónio de Almeida, quando salienta que Mário Mesquita se empenhou, consciente e persistentemente, na busca de um equilíbrio entre os dois princípios básicos da modernidade – o da justiça e o da liberdade”. Assim foi sempre.
A IMPORTÂNCIA DA CRÓNICA
E compreende-se a importância que Mário Mesquita dava à crónica. Oiçamo-lo: “discordo de certos autores para quem a crónica entrou irremediavelmente em decadência. Parece importante preservar, por entre caudais diluvianos de informação escrita e audiovisual, a possibilidade de conversar, de cronicar ou de croniquejar. Forma de expressão característica do jornalismo dos países latinos, importa mantê-la viva, evitar que claudique e deponha armas perante a tendência uniformizante da informação dos porta-vozes. Porque é um espaço estimável de anarquia e de fuga aos coletes-de-força que tantas vezes tornam estéril e desinteressante a prática de outros géneros jornalísticos” (“Deve & Haver”, 1984, p. 218). Vitorino Nemésio ou Carlos Drummond de Andrade ensinaram-nos a compreender que as notícias e as não notícias precisam de ser atentamente vistas, não pelo lado grandiloquente, mas enquanto pedaços da vida vivida, vistos pelos olhos de quem não está constrangido por condicionantes que adulteram a realidade, mas sem a tentação de olhar pelo buraco da fechadura. A escrita baseada num olhar liberto e crítico permite desanuviar e desassossegar.
Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença
Obrigado por incluir nessa plêiade o saudoso amigo Mário Bettencourt Resendes. Ele é ligeiramente mais novo do que o Mário (o Mário era o mais novo desse grupo que o Embaixador Seixas da Costa e eu referimos) e só começa a intervir na cena política e no jornalismo um pouquinho mais tarde. Infelizmente deixou-nos muito cedo.
Mas sim, não deveria tê-lo esquecido.
E, claro, agrada-me muito estarmos de acordo sobre o Mário Mesquita.
Um grande abraço do
Onésimo
Querido Onésimo.
Mais uma vez de acordo.
Grande abraço,
Guilherme
Espero que todos estejam bem de saúde
Este Espaço Nacional de Cultura, podia de facto ter outras referências de Cultura, já que a Cultura não se pode centrar só no tempo do Estado Novo, existem tantos outros anónimos e escritores que não tem divulgação, não tem a forma de dar a conhecer.
Temos a situação da vizinha Espanha, que podíamos dar a conhecer as vidas culturais dos nossos hermanos, já que divulgam o Luís de Camões, dos Lusíadas como poeta Espanhol, tragam outros de Espanha, não faz mal nenhum.
Eu estou num site de partilha de imagens, o Pinterest, e ali muitos criam os seus Pin´s de divulgação de trajes, poemas, danças e sua evolução, com tanta informação de partilha, as pessoas reveem se nestes sites e o Centro Nacional de Cultura, perde a importância e é mau
João Felgar