Desde 1969 que este poeta trabalhou como editor na Gallimard. É belga e a sua poesia muito tem sido comparada a Verlaine. Recordo que aquando do meu texto a Yves Bonnefoy, bem me acudiram à lembrança as suas palavras a Guy Goffette:
«Goffette é um herdeiro de Verlaine (…) ele é maravilhosamente capaz de captar as emoções e desejos comuns a todos nós.»
Em 1894 Verlaine foi eleito o “Príncipe dos Poetas” de França e agora Goffette também escreve:
Je me disais aussi : vivre est autre chose
que cet oubli du temps qui passe et des ravages
de l’amour, et de l’usure – ce que nous faisons
du matin à la nuit : fendre la mer,
fendre le ciel, la terre, tout à tour oiseau,
poisson, taupe, enfin : jouant à brasser l’air,
l’eau, les fruits, la poussière ; agissant comme,
brûlant pour, marchant vers, récoltant
quoi ? le ver dans la pomme, le vent dans les blés
puisque tout retombe toujours, puisque tout recommence et rien n’est jamais pareil
à ce qui fut, ni pire ni meilleur,
qui ne cesse de répéter : vivre est autre chose.
Ontem mesmo fui reabrindo o seu livro “Le Pêcheur d’eau” numa edição Gallimard de 1995 e as palavras de Guy
Le ciel est le plus précieux des biens dans l´ existence. Le seul qu’on puisse perdre le soir et retrouver au matin, à sa place exacte, et lavé de frai.
De facto o poeta Goffette sabe espreitar para dentro quando escreve, num mecanismo quase religioso de quem espreita e entra por tranquilidade imaginística, no tratamento afinal objectivo da realidade.
Sempre li Guy Goffette como um poeta que nunca fechou os olhos das palavras à intenção do mundo. Na escrita de Guy , encontrei um lume autónomo e algo casado com o conteúdo da expressão poète maudit, tal como Verlaine se referia a Stéphane Mallarmé ou Rimbaud que haviam lutado contra convenções poéticas, e por esse facto, foram ignorados pelos críticos.
Mas Guy recebe o Prémio Mallamé em 1989 e ainda o prémio da Academia Francesa.
A Academia é composta por quarenta membros, conhecidos como immortels dando assim inequívoco sinal ao lema à l’ immortalité que, aliás, surge no selo oficial então concedido por Richelieu, fundador da Academia em 1635.
A Academia inclui cientistas, advogados, políticos, escritores como o caso de G. d’ Estaing e mesmo um Chefe de Estado estrangeiro como Léopold Sedar Senghor e a primeira mulher Marguerite Yourcenar que foi igualmente acolhida na Academia.
Contudo muitos notabilíssimos escritores franceses nunca se tornaram membros da Academia o que suscitou a Arsène Houssaye (conhecido novelista francês do sec. XIX) o levantar da expressão “assento quadragésimo primeiro” , para nele caberem quantos foram rejeitados ou faleceram antes de surgirem vagas.
Rousseau, Sartre, Balzac, Zola nunca se tornaram académicos, o mesmo é dizer que não usaram o hábito verde, o chapéu bicorne ou a espada apenas não atribuída a clérigos.
Faço esta algo larga referência à Academia, porquanto no nuclear há verdadeiros e falsos problemas, e mesmo um herdeiro de Verlaine é quem não descuida a medicina do inatingível, que se não obtém por prémios, e ainda que se deixe aproximar de certas realidades estas não o despegam de
(…) tout ça parce que la nuit
et parce que la mer (…)
corps à corps amarrés,
mais la pensée au large
Teresa Vieira
