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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


The Art of Repair

“I am made and re-made continually”, Virginia Woolf

Molly Martin no seu livro “The Art of Repair. Mindful mending: how to stitch old things to new life.” (Short Books, 2021) ensina a viver com o rejeitado, com o resto e com as sobras. Ao dar uma nova oportunidade aquilo que nos rodeia, Martin convida a aceitar o intolerável e o erro, a celebrar o que foi refeito e a dar um novo significado ao desprezado.

Ao consertar, ao reparar e ao restaurar Martin insinua que tudo o que existe resistirá. Não é o eterno, nem o perfeito que se celebra. Mas é a ideia do tempo que passa e da impermanência que é exaltada.

“Nothing lasts, nothing is finished and nothing is perfect”, Japanese Proverb

Molly Martin olha para o mundo através da ideia de que tudo se completa e que a matéria que se manipula nunca na verdade desaparece. A realidade prova que não há ordem nem homogeneidade. O novo e o velho partilham o mesmo espaço, sem fronteiras. Todas as coisas são feitas umas das outras. Somos definidos pelo transitório e pelo precário. Feitos e refeitos a cada minuto. O que é certo desfaz-se e o que se edifica acaba por ser desintegrado.

“Slowly one stitches rags, slowly one traverses the path, and slowly one climbs to the top of the mountain.”, Sanskrit proverb

Martin acredita que o pequeno, o vagaroso, o fragmento, o remendo, o insignificante, a assimetria, a irregularidade, a sombra, a impressão, o frágil, a nódoa e a fenda devem naturalmente fazer parte da vida. Através do ato de remendar evidencia-se assim uma ligação à matéria do mundo, mas também se manifesta a expressão do tempo e do gesto, a forma do corpo e a extensão do estrago. O que está atrás passa para a frente. O que não se vê passa para a claridade. O detalhe minúsculo passa a ter uma enorme importância. O invisível passa a ser exposto. A memória passa a ser concretizada. Através do ato de restaurar narra-se uma história e evita-se que as coisas se transformem em pó: “There is a lesson within the broken fibres we are stitching back together that we might apply to ourselves.” (Martin 2021, 140)


Ana Ruepp

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