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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Crónica da Cultura

CRÓNICA DA CULTURA

Os olhos também servem para tocar

  

O silêncio, se lhe dermos o tempo, pode sim, ser tocado também pelos olhos.

Existem nas verdades primeiras o poder tocar e entender o silêncio aprendido pelos olhos.

Silêncio e olhos atravessam muralhas como quem a esse saber chegou com os pais, e outros mundos mais velhos, como o mundo substantivo do pão.

Muitas vezes usamos os olhos como se bastassem para fazer perguntas, e até bastam, de tal maneira que substituem palavras do lado de dentro do nós: as palavras que perguntam e as que respondem.

O silêncio é uma ferramenta terapêutica à qual deveríamos dar mais uso, já que nos permite ouvir e ver os outros com mais atenção e delicadeza.

Também redefinimos prioridades com o nosso olhar para o ajustar ao que importa.

Os olhos acomodam pensamentos e estes ao silêncio dão tempo para compreender Debussy, quando o explica como aquilo que está contido entre uma nota e outra.

Steiner referia-se à arte de fazer silêncio dentro do silêncio, redescobrindo um tempo mensageiro que só o olhar segurava, um tempo carteiro mesmo, como até já afirmara Baudelaire, para quem só os olhos do silêncio, conheciam a primeira dimensão reveladora.

O mar dos olhos de Sophia ou o silêncio dos olhos de Machado de Assis, constituem encontros decisivos, abraços únicos que nos dotam de uma fecúndia tal, que em nós se sonha o que vamos sonhando na verdade.

Os olhos, os olhos também servem para tocar, e é certo que lhes pedimos beijos, muitos mesmo, e quase de certeza castos, na conceção do puzzle.

 

Teresa Bracinha Vieira

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