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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


CIII – DIZER NÃO AO USO CONFIDENCIAL DA LÍNGUA

Li num texto publicado na net – com referência a tê-lo sido, também, no Público – de um imigrante norte-americano, residente em Portugal, desde 2016, sob o título “Porque é tão difícil dominar a língua portuguesa”, o seguinte:   


“Há uma conspiração. (…) Esta ideia de conspiração parte de imigrantes, como eu, de terras cuja língua materna é o inglês, que ficam frustrados com uma das barreiras mais difíceis de superar neste país. E que condiciona mesmo a nossa integração na sociedade portuguesa. Refiro-me à dificuldade de muitas pessoas em dominarem o básico da língua portuguesa”
.

Após falar nas complicações fonéticas e gramaticais do nosso idioma, sobressai de essencial no seu testemunho o facto de os portugueses presumirem que os estrangeiros não conseguem falar nem perceber português, resultado do lauto número de lusos que falam inglês e da prevalência de informação anglófona, acrescentando:


“Nas minhas viagens por outros países da Europa, tenho sido obrigado a falar e a ler na língua local para sobreviver – isso não acontece em Portugal. (…) Muitos encontros entre portugueses e estrangeiros iniciam-se com o português a falar inglês, sem dar ao visitante a oportunidade de provar a sua capacidade de falar na língua da sua terra”
, reforçando-o nestes termos:


“A via normal para aprender uma nova língua é passar tempo suficiente a ler, a ouvir, a escrever e a falar. As primeiras três atividades podem ser feitas por alguém sozinho. A última, no entanto, tem de ser praticada, preferencialmente, com um natural do país, alguém com tempo e paciência nas fases iniciais”.

Exemplifica-o, de novo, com a ideia comum entre turistas e imigrantes não lusófonos residentes entre nós, de não ser necessário falar português no nosso país, concluindo: “É como se o mundo português conspirasse contra os estrangeiros para manter a ilusão de que a língua, bem como a cultura, acolhe a todos. Mas parece que há um limite”.


Esta perceção é real, pois se é verdade que há uma nova vaga de imigrantes residentes que só ficam enquanto auferirem de um benefício pessoal imediato, não reconhecendo em Portugal uma fonte civilizadora, tendo como efeito um funesto voluntarismo na não aprendizagem do português, também é verdade que há os que se esforçam pela integração, apropriando-se saudavelmente da língua, sentindo-se frustrados pela não ajuda da maioria dos portugueses ao ocultarem dos ouvidos dos outros um bem de que se julgam o único possuidor.   

Escrevi, a propósito, um texto neste blogue, reconhecendo responsabilidade nossa nesse impulso excessivo de falar inglês, por tudo e nada, mesmo que mal, após presenciar uma situação caricata, em que falo do provincianismo, no nosso próprio país, ao omitirmos o nosso idioma e usarmos o alheio “(…) mesmo que o interlocutor se esforce por o aprender e falar, chegando ao cúmulo de ter presenciado, num hipermercado, uma portuguesa a atender, sempre em inglês, um imigrante que se esforçava, expressando-se e respondendo sempre em português (apelei a uma colega, que se apercebeu, para chamar a atenção para o exagero, que compreendeu, prontificando-se a fazê-lo, dado me ter antecipado e não poder esperar)” (A Língua Portuguesa no Mundo, XCVI – Perfil de Anteriores e Novas Vagas Migratórias).

Consciente ou inconsciente, este sentimento de posse, mero voluntarismo, desejo de simpatia, secundarização linguística, complexo de inferioridade ou de subserviência linguística, é tanto mais desadequado, irrazoável e insólito quando somos useiros e vezeiros em exprimirmo-nos em qualquer idioma, que não o nosso, dentro da nossa  casa, com estrangeiros, mesmo em relação a imigrantes residentes que nos apreciam e querem integrar-se embora, por princípio, seja dever de qualquer imigrante que nos procura aprender o básico do nosso falar.   

Este ocultar do português dos ouvidos dos que o não têm como língua materna ou oficial, é tanto mais desprestigiante quando é objetivamente verdade que a língua portuguesa é, por direito próprio, um dos idiomas mais falados mundialmente, integrando o núcleo restrito das línguas de comunicação global, sendo útil e de valor estratégico para quem a fala, incluindo estrangeiros.

Será que persiste, como carga negativa, para além de um sentimento de posse, mesmo que inconsciente, uma baixa consideração social pelos próprios falantes nativos do nosso idioma, ao não terem o português em igualdade de estatuto com outras línguas, mesmo na própria casa?   


30.06.23
Joaquim M. M. Patrício

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