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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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“PORTUGAL AMORDAÇADO”

  


A publicação pela Imprensa Nacional de Portugal Amordaçado da autoria de Mário Soares e a sua apresentação na Fundação Gulbenkian, no dia em que o antigo Presidente da República completaria 99 anos, são motivo de séria reflexão, já que se trata de um texto político fundamental para a história contemporânea. Daí a grande importância desta coleção dirigida por José Manuel dos Santos. Como salientaram João Soares e Jaime Gama, em intervenções de grande oportunidade, não poderemos compreender a institucionalização da democracia sem o entendimento do contexto e dos termos em que se situou o papel fundamental de Mário Soares, quer quando correu o risco do exílio, quer quando decidiu a fundação de uma nova força política, que se tornaria matricial para a afirmação da liberdade, de um consenso nacional, do pluralismo e de uma opção europeia.

Temos de lembrar que Mário Soares, quando decidiu avançar com o livro, estava num momento difícil da sua trajetória política. Como afirmou Jaime Gama, o Portugal Amordaçado “não é um livro escrito no quadro de um percurso de normalidade ou de facilidade, porque Mário Soares tinha não só o problema de se confrontar com uma ditadura, mas tinha também o problema de gerir o seu espaço como líder político”. E assim “usa este livro em estado de necessidade”, procurando “evitar que o seu exílio fosse um passo mais no sentido da sua destruição. Porque os exílios podem ser – e muitas vezes são – passos mais degradativos para a destruição de um político do que a própria prisão”. E Mário Soares teve a agudíssima consciência disso. “O livro ficou pronto em 1972, teve boa imprensa. (…) Escrevi-o com determinação (disse-o a Maria João Avillez), sempre de jacto e de memória, embora com grandes interrupções. Sempre fui visceralmente incompatível com a Ditadura, sentindo o dever moral, irrecusável, de a combater por todos os meios ao meu alcance (…). Mas nunca tive ilusões acerca da dificuldade do caminho. Para dizer a verdade, até pensava que o Governo de Salazar era bem mais sólido do que, finalmente, se revelou ‘a posteriori’”. E acrescentava: “As ideias estão certas. São as mesmas de sempre e estão certas. O livro dá uma larga panorâmica da Oposição durante o tempo de Salazar e de Caetano. O contraponto da propaganda oficial. (…) É um livro que constituiu um marco”. Importava, afinal, definir a autonomia estratégica do “socialismo democrático”. Por isso, houve que estabelecer com as outras forças políticas, boas relações, pontes, diálogo. A preocupação fundamental era “ganhar forças e apoios de toda a ordem para bater e derrubar o fascismo – um regime gasto, serôdio e de traição nacional aos interesses de Portugal”. Assim se exprimia quem conhecia a história, designadamente da Primeira República, tendo consciência de que havia um campo complexo para explorar. Portugal Amordaçado antecipa os acontecimentos. Depois, Francisco Sá Carneiro e Miller Guerra denunciam que a “evolução na continuidade” não tinha futuro, e renunciam aos lugares de deputados da “ala liberal”, nos inícios de 1973, por manifesta falta de condições para o exercício da livre expressão do pensamento. No Congresso da Oposição Democrática de Aveiro de abril de 1973, José Medeiros Ferreira levanta, premonitoriamente, a hipótese da intervenção militar para abrir caminho à democracia e em setembro iniciar-se-iam as ações do Movimento das Forças Armadas, que culminariam em 25 de abril de 1974 com a operação coroada de êxito, antecedida pela declaração “O Movimento das Forças Armadas e a Nação”, em cuja redação Ernesto Melo Antunes teve papel determinante, antecipando o Programa do Movimento, num percurso que culminaria na nossa democracia civil de perfil constitucional europeu. Nos dias de hoje, a releitura do livro de Mário Soares tem, assim, de ser feita como memória de um caminho de coerência e determinação, que foi o de uma vida inteira, como exemplo para a democracia contemporânea.

GOM

7 comentários sobre ““PORTUGAL AMORDAÇADO”

  1. Boa tarde

    Concordo com oque diz sobre Mário Soares e o seu percurso político.
    Foi um percurso bem sucedido.
    Porque verdadeiramente o que separava Soares da Ditadura era a falta de Liberdade, de Expressão de Pensamento e de Liberdade de formação de Partidos políticos.
    Como nunca pensou pôr em causa o Sistema Capitalista, aliou-se a todos que combatiam os que tinham em perspetiva um Mundo sem a “Exploração do Homem pelo Homem.
    Tanto se assemelhou a eles que as suas políticas foram convergindo de tal modo que hoje é difícil descortinar a diferença entre os partidos que nos têm governado desde 1976. São tão parecidas as políticas social-democratas e de direita conservadora que caminham de mãos dadas, por ex. na Alemanha.
    Esta confusão pragmática fez com que os eleitores (e não só os portugueses) façam com que a abstenção seja a “força” mais votada. Mas esta não é a única consequência. Os velhos Salazaristas que por aí pululavam, principalmente no PSD e CDS (assim como Nazis e Fascistas na Europa) viram o tempo certo para saltarem dos barcos onde navegavam clandestinos para formarem o Chega e a IL. Fizeram-no numa hora tão certa que esperaram para que os mais Novos apenas tivessem um conhecimento superficial do que foi a ditadura que foi desligada de quem lhe deu suporte o Capitalismo Monopolista.
    E se um dia estes partidos participarem, ou dirigirem, a governação de Portugal, estão no seu pleno direito. Se a maioria dos deputados assim o entenderem será constitucionalíssimo. Apenas seria anticonstitucional se o Tribunal competente não lhe tivesse posto o visto de probidade constitucional.
    Agora estamos aqui. Sejamos felizes com o que fizemos.
    Zé Onofre

    1. Mas o que é que o cidadão comum poderá fazer para evitar essa ditadura do Chega e da IL, à qual se começa a juntar o PSD e o CDS , e apesar disso pôr em ordem este caos em que Portugal está?

      1. Boa noite (2023/12/27), Aldina
        O cidadão comum poderá fazer alguma coisa para evitar o regresso ao Salazarismo (de roupas lavadas) se os partidos praticarem uma política de verdade e não uma política de caça-votos, custe o que custar, usando mesmo a mentira – candidatos a primeiro-ministro, voto útil; bipartidarismo artificial – programas de governo que sabem que não irão cumprir, programas tão iguais que nem à lupa são diferentes.
        Se os partidos fossem ideologicamente diferentes. não fariam promessas.
        No Liberalismo Radical pode haver políticas e práticas ideológicas diferentes.
        Os partidos podem recusar ser “sim meu amo”; seguidores cegos e bons alunos da UE;
        devem ter voz ativa na Comissão e no Conselho em defesa dos trabalhadores; que não sirvam um Mercado Soberano sem rosto, nem nome; mais vale serem tratados como radicais do que serem paus mandados.
        É para boicotar a Rússia, boicote-se como os EUAN/OTAN/UE, sem pesar – o por quê a existência da OTAN; Diz-se que a OTAN nasceu para defesa da ameaça Comunista-Soviética; a União Soviética caiu; o Pacto de Varsóvia (resposta à OTAN) desmantelou-se; por quê a OTAN se alarga como uma tenaz até à Rússia; por quê apoiar um Governo, saído de golpe de estado, só porque o anterior não queria pertencer à UE; que o boicote prejudica mais os trabalhadores do que o governo russo; que o boicote aos combustíveis russos prejudica mais os europeus que pagam mais por o dos EUAN; que o apoio à Ucrânia fomenta os lucros da indústria de Guerra; como é que a UE ainda se diz território de Progresso e Paz?
        APOIEMOS ISRAEL já que é da vontade dos EUAN/OTAN/UE.
        Não pesam que – Palestinos Judeus, Muçulmanos, Palestinos Cristãos e sem religião conviveram pacificamente sob os Impérios Bizantinos e Otomano; a má convivência entre os Palestinos, Judeus Muçulmanos, se iniciou, no pós 1ª Guerra, com a política inglesa que favoreceu os Sionistas (que levavam Judeus de outras pátrias), em desfavor dos Palestinos Muçulmanos; – as relações entre as duas religiões se agravaram nos anos trinta com a chegada de milhares de Judeus fugidos à perseguição Nazi-Fascista, e com a “nova terra” que o Sionismo lhes “prometia”; as relações entre as duas Comunidades atingiram o rubro quando os vencedores da 2ª Guerra, fizeram uma Judiaria na Palestina chefiada pelo Nazi-Fascista David Ben-Gurion, que queria um Grande Israel, do Mar Vermelho ao Eufrates: os Sionistas não queriam dois estados e a Comunidade Internacional sabia-o.; o desrespeito de Israel pelas resoluções da ONU; a conquista de territórios que seriam do Estado Palestino.
        Os muçulmanos aceitavam um só Estado Palestino onde caberiam os Naturais da Palestina, antes da “invasão” Sionista; a guerra é entre um Colonizador (Israel Sionista) e um Povo colonizado.
        Se – os divergissem e não fossem vassalamente iguais; os jornalistas, não fossem – Pelo PS ou pelo PSD e o resto é paisagem; não falassem que dos dois dirigentes será eleito primeiro-ministro; esclarecessem os cidadãos que não há candidatos a primeiro-ministro; Informassem os cidadãos das iniciativas de todos os partidos; é divulgar, sem juízos de valor, o que cada partido propõe; é não rotular os partidos de radicais, e ou extremistas; é saberem que esse trabalho cabe aos cidadãos depois de bem informados.
        Se a democracia funcionasse o cidadão comum votaria e não se absteria.
        O afunilamento da opção de voto – dá abstenção; dá origem a Chega e IL; origina que os Velhos salazaristas, acolhidos no PSD e CDS e os jovens pensem que Partidos que prometem uma Velha-Nova política que nunca conheceram, são promessa de futuro.
        Deem verdadeira possibilidade de escolha ao cidadão comum e ele fará a diferença.
        Continuem a mistificar a realidade e o cidadão comum correrá para os braços do primeiro Fascista que lhe prometa Raça Pura e Pátria para a Raça Pura.
        Zé Onofre

        1. Muito obrigada pelos seus esclarecimentos. Toda a minha vida corri de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Não tive qualquer tempo para mim informar sobre estes assuntos. Por isso, reforço, a minha gratidão.

  2. Boa tarde Zé Onofre!
    Continuei a matutar no assunto. Os cidadãos comuns também não estão bem educados. O que eu penso é que o problema reside mesmo, na grande, grande maioria de nós mesmos.
    Estamos longe de ser como o povo dos países do Norte da Europa. E, contudo, quando estimulados ou em condições precárias, respondemos. Vejam-se os casos dos nossos emigrantes. Mesmo actualmente. Tive o privilégio de observar o “antes” e o “depois” de trabalhadores no estrangeiro “até doutorados” e vinham completamente diferentes.
    Tive também o privilégio de trabalhar com colegas vindos de outros Países da Europa, até da Ásia, e o seu modo de trabalhar foi para mim exemplar: disciplinados, frontais, afectuosos, gentis, metódicos, produtivos.
    Acho mesmo que só conseguimos resolver isto pela educação, mas já não vai ter efeito na nossa geração.
    Em ditadura, é que nunca. NUNCA!

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