Na candura das alvoradas podemos surpreender o futuro: a ideia de progresso não é a da sobrevivência do indivíduo.
Na modernidade líquida a responsabilidade é individual e se alguém empreendedor de si mesmo, falha, por esse fracasso, responde apenas o próprio. Nenhuma responsabilidade se afere às instituições ou à sociedade, pois estas também são líquidas, aliás, tudo é fugaz e maleável.
A volatilidade das relações económicas e de produção, implicou que o trabalho se tornasse fluido e imprevisível, dissolvendo-se as empresas logo que atingidos os objetivos, dissolvendo-se igualmente o objetivo individual que saltita de ideia em ideia.
A busca do prazer imediato e do auferir monetariamente a cúpula máxima de cada dia, fez perder as referências fixas, deixando de existir projetos de média ou longa duração.
A nossa era aceitou uma fragilidade de laços entre pessoas, e entre pessoas e instituições, que implicou que as relações económicas se sobrepusessem às relações humanas.
A própria lógica do consumo levou as gentes a comprarem afeto e atenção, mas de um modo submisso à moda, à qual os sentires também se devem submeter de x em x meses.
O mistério da fragilidade das relações humanas, desencadeou uma contraditória necessidade de criar laços, nomeadamente através de incontáveis amigos e afins, e a impossibilidade real de poder usufruir de inúmeros sentimentos de outrem, levou e leva à procura constante de novos afetos numa indispensável absurdidade.
Eis as relações que não podem acompanhar a rapidez com que o mundo líquido se move, apesar de ser este o modo de esforço na procura do amor de hoje.
Os níveis de insegurança nas relações amorosas e mesmo de família e de outros convívios, são uma constante das fragilidades em busca de alianças melhores, não se realizando que a falta de compromisso foi e é a grande ignorância que conduziu à sociedade líquida, tendo-se abandonado a confiança nas instituições e na solidificação das relações humanas.
A fragilidade levou à tremenda ansiedade que se vive nos dias de hoje também por total falta de referências e de realidades a médio e longo prazo.
A apartação entre poder e política, o enfraquecer de sistemas de proteção às tempestades da vida, têm também provado que há algo a mudar.
Como afirmou Bauman:
nós, seres humanos, podemos mudar com a racionalidade capaz de perceber o que está errado com o mundo, saber o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos, e ter força e coragem para extirpá-los.
Então, a utopia que conduziu a esta perceção, a confiança no potencial humano capaz de mudança, vivem sim, bem creio, na candura das alvoradas quando podemos afinal ainda surpreender o futuro.
Teresa Bracinha Vieira